Thursday, March 30, 2006

Encantadora

Bruxa.

Por talento e opção.

Os quatro homens conversando sentados na mesa da cozinha, atrás dela. Ela separava cuidadosa seus ingredientes mágicos.

Carne moída, coentro, salsa, cebola. Tomates.Um fio dourado de azeite. Meio dente de alho.

Os rapazes conversavam, e não percebiam toda a magia que se desprendia das mãos dela. Ela sorria - homens não percebem muita coisa sobre as verdades do mundo - e nada dizia, concentrada.

Cortou a cebola ao meio e picou em pedacinhos tão delicados que era possível enxergar através deles. Esmagou o alho, misturou com a cebola.

Derramou um fio de azeite na frigideira quente, e ao refogar o alho e a cebola escutava a voz de todas as mulheres que vieram antes dela. Sentiu o cheiro subindo, e percebeu os primeiros efeitos do encanto - os quatro estavam mais calmos.

Picou os tomates, juntou ao refogado. Abriu uma lata de extrato de tomate- bruxa moderna que era - e derramou na panela. Baixou o fogo, tampou a panela.

Os quatro falavam alguma coisa sobre a superioridade do mercado cultural de quinze anos atrás em relação ao de hoje. Sorria. Quando escutava a voz de cada um, sentia as palmas das mãos se aquecendo, enquanto amassava a mistura de carne com farinha de rosca e enrolava em bolinhas. Almôndegas sem conservante ou acidulante: magia branca.

A feiticeira não parava: fritava as almôndegas, vigiava o panelão de água quente, ria das piadas dos meninos (e homens em número superior a três são todos meninos), sem nunca desviar o pensamento. As mãos esquentando cada vez mais, picou o cheiro-verde discretamente, ocultando a manobra com o corpo. Toda bruxa tem seu ingrediente secreto. Jogou o cheiro verde no molho de tomate, mexeu com a colher de pau e, satisfeita, viu as folhinhas desaparecerem. Meninos não gostam de verdinhos. Bruxas adoram. Não podia esquecer de tirar a folha de louro do molho...

O encanto se tornou mais intenso. Os quatro, animados, cantavam juntos uma música antiga e boba. Ela cantava junto, e as notas da sua voz se juntavam aos ingredientes e intensificavam o perfume e a pulsação de calor que saíam as panelas.

Quem disse que palavras não temperam sopa certamente nunca entrou em uma cozinha. Todas as palavras, pensadas, faladas ou cantadas caem na comida e transformam um amontoado de átomos de carbono em amor.

A água fervendo, acrescentou uma porção de sal, como uma benção. Mais um fio de azeite, o macarrão. Enquanto esperava o fogo fazer a parte dele, deu um pulo no banheiro. Lavou o rosto afogueado, escovou o cabelo, trocou de blusa e colocou um par de brincos. Quando voltou pra cozinha, os quatro apenas perceberam o sorriso aberto no rosto. Outra mulher certamente notaria - mulheres entendem de feitiços e seus rituais.

Escorreu a água do macarrão, jogou um pouquinho de margarina para que não grudasse. Numa travessa, acomodou primeiro o macarrão, despejou o molho vermelho e fumegante por cima, distribuiu as almôndegas com harmonia.

Fez questão de servir a cada um, deixando o seu prato por último e quase vazio. Observava os quatro homens com carinho, sabendo que eles se alimentavam de uma parte importante dela, depositada ali. Uma declaração de amor através da comida.

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Felizes, risonhos, unidos, os quatro homens se revezavam na lavagem da louça.
Ela, ainda sentada, olhos perdidos, planejava fazer brigadeiro branco com castanha para o lanche da tarde. E torcia pra que o encanto desse certo, e que aquela tarde não acabasse nunca.

Tuesday, March 28, 2006

Pão Com Canela e Passas

Era mais uma dessas madrugadas frias no subúrbio, quando o padeiro acordou. Eram quatro horas da manhã e o despertador tocou. Não havia tempo nem pra se espreguiçar. Levantou-se rapidamente e ligou a luz, iluminando o quarto bagunçado, úmido e sujo, onde de móveis só haviam a cama tubular de metal, que rangia a cada movimento sobre o colchão fino, e uma cômoda preta de madeira muito gasta que servia de guarda-roupa e estante.

Embora louco de preguiça, o padeiro pegou a escova de dentes, o sabonete e a toalha e saiu do quarto, em direção ao banheiro que ficava no final do corredor imundo do cortiço. O frio da madrugada ficou ainda mais latente no momento em que ele, nu da cintura para cima passou água pelo rosto, tirada de um tanque que servia também como pia. E, ainda pior depois do rápido banho frio no banheiro de madeirite cheio de frestas, por onde entrava o vento. Não havia ralo nem sistema de esgoto e a água escorria por uma vala cavada na terra, indo para a rua.

O banho foi rápido e, após sair, o padeiro prestou atenção nos sons do cortiço. Os roncos compassados no primeiro barraco, o ressonar leve no segundo e a tosse sempre constante da velha baiana que morava sozinha no terceiro.

Agora nu, no quarto, ele contemplava o próprio corpo, magro e musculoso, com algumas cicatrizes. Pensou que era uma dádiva estar no mesmo serviço há tanto tempo, apesar de não assinarem a carteira na padaria em que ele trabalhava. Só não gostava daquela solidão terrível. Mas como alguém podia ser só num cortiço em que moravam oito famílias? Ele não sabia, nem pensava nessas coisas.

Vestiu a roupa padrão: calças jeans, meias furadas, tênis e a camiseta branca do uniforme. Numa pequena sacola ele levava sua touca e seu avental branco, sem os quais não podia trabalhar.

Subiu na velha bicicleta e desceu pela ladeira em direção a outro bairro, distante dez quilômetros, onde ele trabalhava todos os dias. Sob a luz dos postes ele via o subúrbio fétido, sentia o cheiro de esgoto e do lixo podre e se esforçava para não se sujar nas poças de lama da rua sem calçamento.

Depois viu as casas melhorando, a iluminação, o asfalto.

Assim, pontualmente às cinco da manhã ele chegou à padaria, já sendo esperado pelo seu ajudante, que abria o estabelecimento. Entrou rápido na cozinha suja e mal-ventilada e começou a preparar os pães. Misturava a farinha, a água, e os outros ingredientes, sovando com força, enquanto já deixava o forno aceso.

Em menos de 20 minutos, ele já punha primeira leva de pão no forno, a primeira de mais 20 do dia. Era uma rotina dura de fazer bolos, pães, croissants, petas... E, apesar da baixa remuneração, ele se sentia bem fazendo aqueles quitutes deliciosos. Aquele dia parecia ser normal. O dono da padaria chegou pontualmente às seis, abriu as portas e nesse horário já começaram a chegas os clientes.

Trabalhando sempre, se surpreendeu com uma visitante inesperada, lá pelas dez da manhã. Era uma garota jovem, de seus 22 anos, com um andar altivo e de nariz um tanto empinado. Ela entrou na cozinha e, com seu olhar inquisidor fez uma careta com o que viu.

Surpreso, o padeiro se perguntou quem seria. Logo após, entrou o dono da padaria, mostrando tudo a ela, sorridente. Por fim, ele apontou o padeiro a ela, dizendo:

– Esse é o Jorge. Ele trabalha com a gente já faz dois anos. Ele é o responsável por fazer os nossos pães, filha.

Ah, então aquela garota era filha dele! Ele se sentiu constrangido sendo observado por ela. Aquele olhar de superioridade, como se ele fosse uma espécie de bem ou objeto, não auxiliava muito. E foi assim que se viram pela primeira vez...

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Os dias passaram assim. A padaria era reformada, uma parte de cada vez. O lote do vizinho foi comprado e, com isso, houve um aumento significativo do tamanho da padaria. Também foram contratados mais funcionários, comprados mais equipamentos. Engraçado era só o salário não melhorar.

Porém, nosso herói estava passando por maus bocados. Júlia (esse era o nome da filha do dono) o maltratava. Falava mal de seu cheiro, dos seus pães, ameaçava demiti-lo. Dizia que ele não era a cara da empresa. Devido a experiência e a confiança do dono, ele ia ficando, mas não tinha mais o emprego como certo. Por isso, passou a trabalhar mais, acordar mais cedo e, por ordem da patroinha, ia só às dez da noite para casa, subindo as ladeiras sujas de bicicleta, todos os dias.

Aquela vida o estava matando. Chegava no quarto e desmaiava na cama. Dias e dias nesse sofrimento, e a coisa só piorando.

O dono resolveu se aposentar e a filha passou a tomar conta de tudo. Ia várias vezes ao dia à cozinha, reclamava da sujeira, do estado das panelas, do calor, do cheiro. E sempre era em Jorge que caíam as mais duras críticas. Ele se desesperava e como dependia do salário para viver, ouvia tudo silencioso. Parecia haver um certo sadismo no olhar dela, nas atitudes para com ele.

Por fim, os amigos da padaria pararam de falar com ele, com medo de também serem alvos da fúria da patroa. Por fim, um dia, Júlia o chamou em sua sala e disse:

– Jorge, agradecemos pelos anos que você serviu a nossa empresa, mas seus serviços não são mais necessários. Estamos contratando um padeiro novo e ele irá substituí-lo na semana que vem.

Era o fim. Jorge argumentou de todos os jeitos. Tentou se ajoelhar, se explicou de todas as formas e,vendo que nada surtia efeito, juntou todo o amor próprio que ainda restava e disse:

– Pois bem, se é assim, dê um jeito dele vir trabalhar agora, pois eu me vou. Disse isso e jogou o avental e a touca no chão, saindo com fúria. Ia bater a porta da sala, quando ela disse.

– Espere um pouco. Digamos que possa haver um modo de você permanecer. – Levantou-se da mesa e continuou – Se você me provar essa semana que pode fazer uma nova receita para alavancar as vendas da padaria, você fica. Senão, rua. Pode ser?

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Sem ter outra alternativa, ele aceitou e passou as noites escondido na padaria, no único tempo livre, experimentando novas receitas. Misturava sabores, texturas, proporções e criava os mais magníficos quitutes.

Contudo, no resto do dia passava sonâmbulo, trabalhando muito mais do que devia. A patroa não perdia oportunidade e estava particularmente sádica. Derrubava panelas, jogava pães no lixo. Se irritava muito facilmente. Em tudo que falava ou fazia, botava culpa no Jorge, o padeiro. A situação estava insustentável, pois nenhuma das receitas satisfazia a patroa. No fim, no último dia ele fez um esforço desesperado para criar algo novo e original.

Fugiu de Júlia o dia inteiro, se enfurnando na padaria para continuar tentando. E o dia passou, a noite veio, os funcionários se foram. Ficou Jorge na padaria, com as portas fechadas. Foi quando a patroa veio:

– E então, quero ver o seu quitute maravilhoso. Ou você pretende desistir?

– Não há nada original que eu já não tenha lhe mostrado. – Disse ele tristemente.

– Pois bem, acho que você já pode ir agora. Como disse, você não tem o perfil de nossa empresa.

Ele então juntou as coisas, com os olhos marejados, colocou na sacola, sendo sempre observado por Júlia. Ia saindo pela porta, quando estacou.

Num ataque de cólera, ele andou na direção de Júlia, jogou a mochila no chão e, acuando-a contra a parede, disse:

– Por quê? Porquê me tratas assim? Eu, por acaso lhe fiz alguma coisa? Você sabe alguma coisa sobre mim?

E ela, olhando-o nos olhos pela primeira vez vacilou. Foi então que ele percebeu o que nem seu coração tinha percebido antes. Seus olhos também o traíram. E, dois pares de olhos traídos se atraíam, na atmosfera envolvente da noite. O frio elétrico e o silêncio foram substituídos belo beijo. O beijo, que era apenas boca, virou abraço, corpo e sombra. E no frenesi dos amantes, nem viram o vidro de canela, e o vidro de uvas passas caírem sobre a massa que descansava.

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Casaram-se dois meses depois e a receita de pão com canela e passas é a mais famosa da padaria da dona Júlia, que vive com Jorge até hoje no mesmo bairro, vendendo pães na mesma padaria.

Monday, March 27, 2006

Vem. Vem, fala que a minha pele é perfeita, que eu sou gostosa, que eu não presto.

Fala que eu sou bonita, que eu tenho de ficar calada, que você fica sente minha falta durante todo o dia.

Vem, joga o teu peso sobre mim. Me machuca apertando meu quadril com desespero, me morde com amor, me deixa entender o teu sofrimento e a tua alegria.

Entrega pra mim toda essa dor. Grita bem alto, pra que o mundo escute que você agora não é homem adulto, é menino que brinca. Grita e expressa o prazer que causo.

E quando você desabar suado e cansado, eu estarei lá. Obediente e autoritária, meiga e brusca, desse meu jeito que eu não sei mudar.

E eu saberei mais sobre quem você é e o que sente. E, mesmo calada, meu pensamento explodirá em poesia e prece, para que você sempre permaneça livre e abençoado.

Sunday, March 26, 2006

Já se conheciam há um tempo. Dois ou três meses, algumas trocas de idéias agradáveis, insinuações de parte a parte, e os dedos dele encostando nos joelhos dela a cada troca de marcha.

Não se falavam há quinze ou vinte dias. Compromissos, correrias. E na segunda-feira ele telefonou. "Depois que voltou de viagem não parece amesma" "Tava fazendo um frio danado por lá" "Li um livro muito legal, queremprestado?" "Ah, o Kama sutra eu li aos doze anos" "Menina precoce...""Menos do que parece."

Na terça feira, foi ela quem telefonou. Deitou na poltrona e ficou uma boa parte da madrugada falando sobre filmes, livros, opiniões sobre o mundo -e os dois concordavam que os jovens de hoje não são iguais aos de antigamente - e visões de vida. Ao desligar o telefone, aquela impressão de que nada é por acaso, e puxa, ninguém neste mundo precisa ser sozinho.

Na quarta-feira não houve telefonemas.

Na quinta-feira, ela ligou novamente, já com aquele calor no coração ao ser escutada com atenção. Madrugada, no escuro da sala, a confiança crescendo devagarinho. A última gafe do presidente, o escândalo de corrupção, e um comentário que se pretendia inocente (obviamente, sem o ser): "Eu acompanho esse escândalo de mensalão torcendo pra que apareça algum escândalo envolvendo sexo pago com verba pública..." Então, falaram sobre todas as variações e áreas próximas, e falaram sobre decepções, histórias bizarras sob os lençóis, solidão e banalização. Sexo, sexo, ora, qual o problema de se falar sobre isso? Estamos apenas conversando.
Ela sabia que não seria apenas isso. A mulher sempre toma a decisão.

Durante a sexta, ela passou o dia inteiro com as duas idéias se alternando no pensamento - ele e sexo. Os compromissos pareciam todos tão afastados,ora, imaginar é bom... e o que fazer se ela imaginava o tempo todo? Sorria lembrando das histórias esquisitas que ele havia contado - envolvendo um casal, uma barraca de camping, um cachorro fila e um pai apontando uma arma - e se surpreendia relembrando, a mão no câmbio, a ponta dos dedos roçando o joelho, coisa boa ser mulher e poder usar saia. O poder.

Sexta à noite, ele ligou mais cedo. Aquela conversa de sempre, o que você fez hoje, que coisa legal, estou cansado de trabalhar. "Que tipo de música você gosta de ouvir?" "Sou super fora de moda, gosto de Bossa Nova e MPB." "Djavan?" "Claro!" "Toda mulher gosta de Djavan...O que é que ele tem?" "Sensibilidade..." "Tem algum lugar que você conheça que rola um banquinho-violão?" "Saio pouco, mas tem um que já me recomendaram muito." "Eu conheço. Vamos lá amanhã, então?" "Sim, sim, SIM!"

Desligou o telefone. Ela repassou todas as imagens que criara em sua mente durante a semana. Ora, ninguém no mundo precisa ser sozinho. Muito menos ela.

O Sábado passou ligeiro, várias coisinhas pra fazer, louça pra lavar, uns abacates pra bater no liquidificador. Entrou no chuveiro às seis e saiu quarenta e cinco minutos depois, depois de passar dois cremes diferentes e depilar as pernas um palmo acima do joelho. Como é bom ser mulher e poder usar saia.Resolveu fazer um joguinho sutil. Telefonou pra ele. "Oi, tô saindo de casa, mas ainda tá meio cedo, não?" "Branco ou preto?" "Como?" "Branco oupreto?" "Branco ou preto, o quê?" "BRANCO, ou PRETO?" "Ahn...preto?" "Certo." E desligou, maliciosa. Tirou o vestido preto do armário e vestiu. Não estava perfeito. Mas estava quase. Salto alto e fino, que ela só tinha usado pra ir a um casamento. E ela tinha nos olhos a certezade que não precisava ser sozinha.Estava ansiosa.
Hora combinada, lá vai ela. Andando propositalmente distraída, fazendo de conta que procurava algo do outro lado da rua, cada passo absolutamente calculado para parecer sedutor e ingênuo. Viu que tinha conseguido."Nossa..." - ele disse.
Sentiu-se falsa. Planejando tudo, a semana inteira. Sentiu-se mal. E resolveu não fazer mais joguinhos. Quando decidiu ser ela mesma, a conversa fluiu fácil. Ela estava alegre, e pensando que, ora, há várias maneiras de não ser sozinho.Chegando ao lugar-banquinho-violão, se sentiu ainda mais parecida consigo mesma. Sabia todas as músicas de cor, e cantarolava feliz. Ele pediu cerveja; ela, suco de morango. Um ambiente bonito, uma conversa bacana.Estava solta.E, talvez por necessidade de refletir este estado interno, soltou o cabelo e fechou os olhos. Quando abriu os olhos novamente, ele a observava fixamente. "Você se transforma. Quando soltou o cabelo e ficou calada,parecia outra pessoa." Ficou sem saber o que dizer.Levantou e fugiu para o banheiro. "Maldito cabelo." Molhou as mãos e passou pelos fios, para mantê-los no lugar. Se olhava no espelho tentando entender que brilho era aquele nos olhos.
Saiu distraída e esqueceu do degrau. Salto alto e fino.POFT. Dois garçons vieram correndo, "tudo bem, tudo bem..ai...", queria se enterrar ali mesmo, sorte que ninguém viu. Esfolou o joelho na parede áspera - "mania de decorador, parede cheia de textura" - e pediu no bar um pouco de gelo pra fazer uma compressa.
Voltou à mesa com uma cara de dor que não tinha nada de cálculo. "Que foi?" "Meu joelho queria conhecer melhor a parede..." "Nossa! Machucou muito?" "Não sei, trouxe um gelo pra colocar.Tá ardendo." "Me deixa ver."

E foi assim: os dedos roçando o joelho, o gelo embrulhado no guardanapo de papel, e aquela faísca elétrica percorrendo os dois - pois ela viu o mesmo brilho nos olhos dele.Ninguém no mundo precisa ficar sozinho.

Sou Eu, Não Acreditas?

Ei, fecha os olhos, bem devagar
Estou aqui, me sente
Meu hálito no teu pescoço, sente
Não, não olha, sente
Estou contigo, só tu que não me vês
Sente, é minha mão roçando agora tua nuca
É minha barba levemente em tua nuca
Não, não te assustes, quero-te bem
É minha mão sobre teu ombro
É minha mão sobre teu colo
Assusta-te porque não me vês?
Porque só acreditas no que vês?
Estou aqui, é um milagre, e te quero
Sinta a minha mão sobre tua barriga
Não acredite nos teus olhos, sou eu quem digo
É minha boca a se aproximar da tua
Não tenhas medo
É minha boca a ter a tua
É minha língua querendo a tua
Tua saliva me inebria
É meu peito que tu sentes com a mão
Estou nu, agora sentes, fiques também
Eu já lhe disse não quero o mal
São meus dentes a arranhar teu pescoço
Eles de novo a mordiscar seus seios
É minha língua penetrando tuas carnes
É tua mão a apertar a minha nuca
São teus lábios a suspirar bem lentamente
São teus seios mais endurecidos
É tua carne cada vez mais aquecida
É minha língua, não te deixarei
É tua boca me implorando que te deixes
É tua boca: oh!
É minha boca: não pararei!
É tua carne a se aquecer mais uma vez
É tua boca a procurar bem forte a minha
É tua mão a procurar minha carne
É minha carne a explorar a tua
E explora, e explora, e explora
É tua boca: oh!
É minha boca: não pararei!
É tua carne agora mais aquecida e mais úmida
Já não agüentas mas não me pedes pra parar
É o suspiro, o suspiro, o suspiro
É minha boca, junto da tua: oh!
Abres os olhos, ainda não me vês.
Era um sonho, eu te enganei...