Sunday, April 30, 2006

Wafer de morango

Os dois eram muito novos.
Não sabiam sustentar uma família, não sabiam organizar as contas de uma casa.
Mas sabiam amar. Sentiam aquela tepidez, aquela urgência de estarem juntos.

Aquela era a última tarde só deles. Depois viriam as obrigações protocolares, acenos regulamentares, apresentação de documentos. Teriam de atuar dentro do que os outros esperavam que fizessem. Depois seria a separação inevitável, a distância, os movimentos vigiados.

Conseguiram escapar. Tinham duas horas para o almoço. Fugiram, se perderam entre ruazinhas de um bairro cheio de árvores, e encontraram um refúgio.

"Sem tempo a perder." Ela gostaria de oferecer o melhor do mundo, mas o tempo de que dispunham era pouco. Dividiram um pacote de biscoito wafer sabor morango. Sem tempo para luxo ou formalidades.
Sem perguntar muito, tiraram as roupas um do outro. Não fizeram promessas impossíveis, não criaram falsas esperanças. Quando caísse a noite, tudo estaria decidido, sem que os adultos perguntassem a opinião do casal.

A entrega foi total. Os corpos se entenderam, a urgência era grande, a sede, infinita. Expuseram sua nudez, seu medo e seu amor ao céu azul.
Não tinham idade para controlar uma casa, responder por um governo. Mas tinham idade para amar, e assim fizeram, sob o sol do meio-dia. Duas, quatro, quantas vezes? Não importava mais.

Foi tão simples e tão bonito que o mundo fez de conta que não percebeu. A vizinhança fez de conta que não ouvia os sussurros de amor, os gritos de prazer intenso e marginal.

Findo o prazo, ela lembrou dos compromissos, dos horários, dos protocolos. Vestiu-se, e cheia de dor, despediu-se dele.

Entrou no palácio, onde a aguardavam papéis e decisões. Ainda sentia gosto de morango na boca.

Monday, April 17, 2006

Pastel com Caldo de Cana


Tarde quente em Brasília. Jorge detesta o incômodo do calor, que deixa a sua camisa empapada de suor. Sob as axilas, uma mancha viscosa. O sol escaldante brilhava no alto de um céu azul cheio de nuvens brancas e desprovido de aves. De dentro do ônibus ele via a cidade: grandes áreas verdes e prédios baixos, de mesma altura. De vez em quando via algum monumento, alguma obra modernista de Niemeyer que se esquadrinhava naquela paisagem pictórica.

Jorge estava sob o sol, no ônibus cheio, do lado da janela, incomodado pelo pequeno espaço deixado no banco pelo seu nada educado companheiro de banco. Este era um rapaz gordo, de uns vinte e cinco anos, que ressonava com as pernas abertas, balançando a cada movimento do ônibus. Tinha um olhar sereno de batráquio e, de vez em quando, fungava ruidosamente o nariz, provocando asco no pobre Jorge.

Engraçado como o calor influencia no nosso humor. Ele costumava deixar Jorge irritadiço. Queria se desprender dali, queria ir para uma praia de Fortaleza, onde pudesse andar seminu, sentindo a areia escaldante sob os pés e, livre, pular no mar, molhando todo o corpo na água salgada. Porém, lembrou-se de que as praias imundas, cheia de banhistas gordos, besuntados de óleo, comendo farofa e jogando areia nos seus olhos. O pior mesmo era a poluição. Como pode uma cidade turística ter uma praia poluída? Isso era um acinte! Claro que ele se esqueceu que o Lago Paranoá, que ele tanto gostava e no qual jamais tinha mergulhado já fora poluído.

Depois de pensar nessas coisas ele desistiu da praia. Era muito melhor estar num lugar frio, talvez numa montanha distante, ou num lugar cheio de campinas verdejantes. Porém, também repeliu esse pensamento arcadista. Detestava montanhas, morrinhos, até ladeirinhas íngremes. Gostava muito do Planalto, as ruas onde se via até o horizonte. Grande Lúcio Costa, pela sabedoria de planejar uma cidade onde sempre se vê a linha que divide o céu e a terra. Uma mistura de céu e mar, onde as nuvens fazem papel de espumas na marola do anil celeste. Que inferno, mais uma vez esse rançoso pensamento arcadista! Jorge sempre tinha preferido os poetas do romantismo. Terceira fase, óbvio.

O batráquio incômodo acordou sobressaltado e levantou-se pois se aproximava a sua parada, incomodando agora os passageiros que estavam de pé, que tinham que abrir espaço para sua passagem. Por um instante, Jorge pôde enfim abrir as pernas e, nesse intervalo infinitesimal, se esqueceu do calor, do incômodo, de tudo.

Uma mulher se sentou ao seu lado. A princípio, Jorge não ligou muito para a nova companhia que ia acabar com seu prazer repentino: escancarar as pernas. Por um instante ele pensou que isso devia ser um grande privilégio, algo que apenas pessoas de grande prestígio podem dar-se o luxo de fazer. Contudo, se lembrou que era um cavalheiro e voltou para a posição habitual.

Olhou para a nova companhia disfarçadamente. Na verdade, ele não costumava olhar para o passageiro ao lado. Jorge não gostava de incomodar as pessoas e achava que olhar para o indivíduo ao lado era de tal modo desagradável como espiar uma pessoa num desses rituais cotidianos que gostaríamos de não saber que existem.

Nessa espiada, ele pôde vislumbrar apenas os longos cabelos negros que esvoaçavam com o vento que entrava pelas janelas abertas do ônibus. Viu também seus óculos escuros e a pilha de livros que o passageiro do banco da frente lhe devolvia para que ela descansasse sobre o regaço.

O ônibus parou no semáforo e ele voltou a olhar pela janela e ver as mesmas coisas: as avenidas largas, lotadas de carros que se enfileiravam, os pedintes nas ruas em contraste com os prédios, os meninos cheirando cola. Tudo absolutamente normal.

Engraçado, agora que ela tinha se sentado ao seu lado ele tinha se encolhido ainda mais, como que para dar à vizinha um privilégio que ele não teve. Era como se ele quisesse que ela não percebesse sua presença, apesar do ônibus lotado. Para Jorge, embora ele não soubesse, a perfeição era algo parecido com a nulidade: o homem perfeito era o que desaparecia na multidão.

Distraidamente, ele olhou mais uma vez para o lado, curioso. A moça lia, concentrada. Que livro seria, meu Deus? E Jorge passou a tentar adivinhar o livro. Fez um tremendo esforço de memória para se lembrar exatamente do tamanho, da forma, da cor, da editora. Não se contendo, olhou mais uma vez e teve certeza: Espumas Flutuantes, de Castro Alves. Ora, romantismo. Terceira fase, óbvio.

E acabou o sossego do Jorge. Ele tinha uma veneração inexplicável por aquele livro. Lembrava-se de muitos poemas daquele autor. Porém, sua consciência lhe dizia que ele não devia se mostrar muito. Era uma grande indelicadeza. Dentro dele, dois “eus” lutavam: um, o curioso, queria ver qual dos poemas ela estava lendo. O outro, o educado, não queria saber de conversa. Esses dois eram escravos de um terceiro “eu”, o tímido, que dominava todos os “eus” demais.

– Gosta de poesia? – Ela tinha uma voz tranqüila. Num tom monotônico. Parecia ser afinada em Mi maior.

Ora, Jorge não esperava ter de travar conversação com aquela criatura. Muito menos olhá-la nos olhos, como ele fazia agora. Ele observou os lábios, um pouco carnudos, mas com algumas covinhas nos cantos da boca. Tinha seios pequenos (é, ele observou seus seios de relance) que estavam dentro de uma camisa azul muito leve, com um golfinho cinzento bordado. “Responda, seu idiota, ela está te olhando”.

– Sim, eu gosto muito. – O sim saiu excessivamente grosso, muito mais do que ele gostaria. Vacilou um pouco antes de continuar – Bem, na verdade, só os poetas românticos.

– Da terceira fase?

– Óbvio – ele completou. Será que fui rude demais? ele pensou nisso, um tanto quanto preocupado com a impressão. Ora, mas porque ele estava se preocupando com a impressão?

O ônibus chegava à rodoviária do Plano Piloto, que era um ponto final, onde todos ali desceriam. Sentiu os cheiros familiares: urina, fumaça de diesel queimado e suor humano. Já imaginava o som de mais de cinco mil almas humanas se misturando, se batendo, relacionando-se.

Ela se levantava. Sobressaltado, ele levantou-se e bateu no braço dela, derrubando os livros. Irritada, ela olhou para ele, por sob os óculos escuros. Abaixou-se para pegá-los. Jorge, sem saber o que fazer também se abaixou e, no momento que pegava o Castro Alves, o ônibus freou bruscamente, fazendo com que ele acertasse a testa num dos bancos. Tinha doído um bocado e ele sabia que aquilo ia virar um galo. Ela parou, deixou os livros sobre o banco e tentou ampará-lo.
Como ele estava constrangido com tudo aquilo! Aquela mulher que ele nunca tinha visto estava ali, tentando lhe curar de um galo.

Muito irritado e envergonhado, a observou mais uma vez. Ela sorria, um pouco quanto contrafeita e solidária. Ela tinha um sorriso muito bonito. Lá fora, ele ouviu o barulho de um trovão e o céu caiu sobre eles, em grossas gotas de chuva.

– Que clima louco! Ainda agora fazia um calor infernal e agora, parece que o mundo inteiro cairá sobre nós. – ela disse isso, talvez tentando mudar de assunto.

– Que bom, detesto calor, prefiro chuva.

– Eu também.

– Sabe, tem uma coisa aqui na rodoviária que eu gosto mais ainda do que chuva.

– Pastel com caldo de cana da Pastelaria Viçosa.

– Ora, como você adivinhou?

– É óbvio.

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Casaram-se seis meses depois numa chuvosa tarde de novembro.

Thursday, April 13, 2006

Histórias de Azeitonas e Empadas

Ele era um rapaz normalzinho. Aquele tipo padrão:moreno-claro-olhos-e-cabelos-castanhos-metro-sessenta-e-cinco. Se vocêestivesse andando na rua, ele seria aquele ali, de calça jeans e tênisvelho. Se você estivesse sendo televisão, ele seria aquele figurantecomprando pipoca ao fundo. Tinha gasto algumas horas da puberdade tentandocompreender Deus, e outras tentando compreender equações biquadradas.Fazia os amigos rirem em alguns dias, e chorarem em outros. Não gostava depegar chuva nem sol. Um típico brasileiro de estatura mediana, que jáhavia gostado muito de várias fulanas.

Ela era comum. Nem alta nem baixa, nem magra nem gorda, nem bonita nemfeia. Na escola, era aquela aluna que sentava no meio da sala e tiravaseis ou sete . Gostava de ler muito (livros finos com figuras), e quando não sabia o que vestir usava marrom ou cinza. Falava só com as pessoas mais chegadas, usava batom cor de boca. Num dia de extrema ousadia comprouum prendedor de cabelo laranja - mas nunca encontrou uma roupa quecombinasse com ele. Não sabia muito bem o que era um partido de direita ouesquerda, e nunca tinha passado por extremos de amor ou ódio. Pedia cachorro-quente sem catchup, com maionese. Era uma moça mais ou menos legal, mais ou menos chata.

Eram duas pessoas intermediárias. Nem infância nem terceira idade- adultosjovens; nem negros nem brancos - pardos. Dois seres humanos comuns, sem realmente nada de especial, nenhuma característica de destaque, nenhum traço diferenciador.
E eles se viram uma vez, duas, três. Continuaram se vendo até perderem a conta das vezes.

E ela explicou pra ele como resolver equações biquadradas.
E ele deu pra ela no Natal uma camiseta laranja.

E ela gostava do jeito dele falar sobre como é difícil entender Deus.
E ele gostava do jeito dela olhar pras nuvens mudando de forma.

E esse gostar um do outro foi o que fez os dois serem pessoas melhores.
E, do jeito mais ou menos legal deles, foram felizes.

Thursday, April 06, 2006

Cerveja com Frango a Passarinho

Quando a viu ele não sabia exatamente o que tinha sentido, só sabia que era um tipo esquisito de estremecimento. Aquela coisa que começa lá na nuca e vai descendo até a ponta do pé. De repente, encolhe os ombros, quase a ponto de encostá-los nas orelhas e fica com o corpo todo naquele frenesi estranho. Tá bem, vão dizer que isso nunca aconteceu com vocês, que isso é apenas um reflexo de outra coisa, como frio. Eu aceito o ceticismo geral.

Bem, realmente estava frio naquele dia. Realmente uma brisa passou por ele no momento em que ele a viu, levantando o casaco e as saias das mulheres que andavam naquela rua movimentada. O problema é que ele associou o estremecimento ao fato de tê-la visto. E não pensem que ele era destes que acreditava em Cupido, em amor à primeira vista, nessas sentimentalidades todas. Eu o conhecia há muitos anos e podia dizer categoricamente, o Jorge não era desse tipo de coisa. Ele sempre foi muito centrado.

Ainda me lembro que quando ele ia pras cervejadas com a gente, era sempre do mesmo jeito. Pedia sempre a mesma cerveja pilsen, uma garrafa e não mais. Ficava lá, ouvindo os outros falarem suas proezas (porque em mesas de bar só vemos narrativas de proezas, incrivelmente) e raramente fazia algum gesto, pra afirmar que ouvia as histórias. As proezas dele eram sempre secretas. Nunca conseguimos arrancar nem uma só palavra dele, mas no fundo sabíamos que o Jorge sabia aprontar.

Só faltava ser mineiro.

Mas ele era paulista. Tinha aquele sotaque palociano, aquele jeito especial de puxar o “erre” e falar o “ene”. E, pasmem, usava óculos e era meio gorduchinho. Nunca jogava futebol com a rapaziada nas sextas no campo do Batata. Chegava lá, ficava olhando de longe, gritando as jogadas. O engraçado era que ele sempre ia uniformizado: calção, camiseta, meião e chuteiras de societ nunca usadas.

Nós homens sabemos exatamente quando um de nós se destaca na corrida pelas mulheres. Esses caras têm aquele olhar de caçador. Eles olham pra mulher e é como se eles dissessem assim: “você é minha”. Meus amigos diziam que não, que o Jorge não era disso. Chegaram até a duvidar que ele gostasse da fruta. Mas eu sempre fui irredutível: o Jorge era um conquistador irremediável.

Foi muito surpreso que vi com que intensidade ele olhou praquela mulher. E, olha, ela nem era isso tudo. Na verdade, era um bom caldinho. Umas perninhas de garça, uma bundinha meio murcha, cabelos negros. Sim, talvez arrumada numa festa, quem sabe?

Bem, não liguem pras minhas palavras. Eu, como conquistador incorrigível, sempre falo nesses termos. O importante foi ver como o Jorge me deixou perplexo naquele dia. Porém, não disse a ele que tinha notado a maneira que ele viu aquela mulher. Fomos trabalhar tranqüilamente naquele dia.

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Eu disse tranqüilamente? Mero engano. O Jorge não deu sossego. Foi o dia inteiro sem se concentrar, irritadiço...

Então, lá pelas três horas da tarde ele pegou o paletó. E zarpou. É, senhores, o Jorge não era disso também. Em dez anos eu nunca tinha visto ele sair mais cedo. Nem no dia que a mãe dele morreu.

Não podia deixar de acompanhar meu amigo nessa empreitada. Não me tomem como mexeriqueiro, eu só queria resguardar o Jorge. Ele estava alterado. E se ele fizesse alguma besteira? Eu tinha obrigação de ver o que ia acontecer. E também, ia ser um assunto fantástico pra cervejada na sexta.

E o seguia de longe. Uns dez passos mais ou menos. Ele ia tropeçando nas pessoas, batendo nas bancas de jornal. Foi quase atropelado algumas vezes. Não falei que tinha de acompanhar o Jorge?

Como eu já tinha adivinhado, ele parou bem em frente ao prédio que a gente tinha visto a mulher. E ficou parado lá, olhando fixamente para o prédio. Eu conheço o Jorge, sei como ele é impaciente. E isso transpareceu. Olhava pro relógio, pro prédio, ficava andando em círculos. Putz, dava agonia só de ver. Pensei em ir lá, falar alguma coisa. Mas o que é que eu falaria? Então fiquei lá, como ele, esperando. Mas não em pé, óbvio. Fui pro bar na esquina, onde tinha uma visão privilegiada dos acontecimentos.

E cerveja vai, cerveja vem. Olhava pra televisão que passava um jogo do Barcelona. Pedi um frango a passarinho e ia beliscando. Lá pelas seis e meia, quando o jogo já tinha acabado e os postes da rua começavam a acender ela apareceu. Pensei ali com meus botões que ia começar o espetáculo. Paguei a conta e fiquei a observar.

O Jorge, desnorteado, atravessou a rua e foi falar com ela. Um tanto quanto rude, eu diria. Pegou ela pelo braço, puxou pra si e começou a discussão acalorada. E eu vendo tudo aquilo de camarote. Teve uma hora que ela se desvencilhou dele e saiu andando para a rua. Ele saiu correndo atrás, não deixando que ela escapasse. Ela começou a bater nele e ele a soltou.

Desequilibrada, ela caiu na pista, sendo atropelada por um ônibus lotado.

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Só depois, muito depois é que eu soube que ela era a ex-mulher dele, que tinha fugido, meses atrás com o vizinho do andar de cima.

Pobre Jorge, hoje mora numa suíte de um conhecido presídio do Rio de Janeiro.

Saturday, April 01, 2006

Ainda Que Não Se Beijem Mais Os Amantes

Ainda que não se beijem mais os amantes
Embora o amor, chama acesa
Que queima
e dilacera
Que toma
e destrói
Que entorpece
e ilumina...

Ainda que não se toquem mais os amantes
Embora o desejo, palpável
Tome de conta
Arrebate
Evolua
Simplifique
Destoe

Ainda que não se falem mais os amantes
Embora as bocas, sedentas
Se completem
Se procurem
Se desejem
Se possuam
Se interrompam

Ainda assim serão amantes
Ainda assim serão chamas
Crepitantes e desesperadas
Simbólicas e infinitesimais
Re-significadoras
lembranças férteis
Amálgama eterno.

Metades que se completam