Thursday, May 18, 2006

Eu te trouxe um gosto de Tucumã.

As pontas dos dedos já alaranjadas. São mais de trezentos tucumãs descascados, e ainda faltam quinhentos. Ela olha as pontas dos dedos, se pergunta se um dia o cheiro de tucumã sairá.

Promessa estúpida, "vou te levar quilos de tucumã", devia ter prometido apenas uma dúzia. A coluna reclama, os dedos fazem coro, ela prossegue. A faca de ponta, cúmplice, desliza de cima a baixo, trazendo consigo a polpa das frutinhas.

Amor é uma coisa irracional por definição. Ela pensa nas horas de avião, nas duas malas por fazer, no frio de quinze graus que a espera, nos caminhos intrincados que tem de percorrer, nas dívidas contraídas. Pensa nas mãos bonitas, na risada de menino, nos olhos pequenos, e, louca lúcida, sorri.

Trezentos e um. Faltam quatrocentos e noventa e nove.

Friday, May 12, 2006

Sensações

Vejo o beijo que ressuscita. Sinto o poder da carne que se funde, da preservação natural. Sinto o cheiro acre do amor, dos poros sudoríparos, das mãos que se cruzam quentes, dos hálitos adocicados que se misturam.


Antes porém, cego, vejo os contornos das ancas, os lábios dos lábios, os olhos dos olhos, uma fusão interna, uma mistura cataclísmica, um estupor, uma esclerose múltipla, uma reparametrização. Corpos que bóiam no éter, corpos que vibram juntos, freqüências que se somam e divergem, numa explosão de multiplicidades, num espetáculo quixotesco, num ensaio dadaísta...


Isto terminado, vejo o fim da tarde da janela. A tarde que termina a entrega do general, a decapitação suprema e elementar, o fim do fio da vida: insolitude...

Tuesday, May 09, 2006

Carícia

E as suas mãos deslizam, deslizam...e onde você me toca eu fico mais bonita, pois você me deseja - e esse desejo me preenche, conserta as falhas, alisa as arestas, ressalta as qualidades.

As suas mãos no meu corpo fazem cafuné na minha auto-estima.

Saturday, May 06, 2006

Quero-te

Eu quero teus lábios tristes e delicados. Eu quero tua alma que se entrega docemente. Quero-te mulher e esposa. Amante e paixão.

Não te quero pela metade. Inteiriça para mim, mulher, carne e boca, sangue, nervos e êxtase. Pedaços que se juntam, matriz antropológica, fogo e paixão, sintetização de dois mundos paralelos, um cruzamento de dois universos, estes que se findam e se fundem, se repelem e misturam.

Quero-te, loucamente, mulher, princesa equatorial. Quero-te com a língua, com os lábios e os olhos. Quero-te com os dedos, o nariz e o sexo. Quero-te entregue, jogada, indecisa e feroz. Quero-te embrenhada nos meus lençóis. Quero-te, uma pantera esfomeada, numa selva atroz. Quero-te nua, doce e absurda. Quero-te, gozos que se fundem.Quero-te: metade de mim...

Thursday, May 04, 2006

Suco de alfinete

[E ele disse: Tem horas que você me machuca, querida.]

Perdão, meu amado, perdão pelas alfinetadas dos meus lábios.

Não fica aborrecido se o meu beijo por vezes é pontiagudo. Pensa nos litros de suco de alfinete que tenho de tomar todo dia... Se dependesse de mim, tu não encostarias em nenhum desses alfinetes, querido.

É por isso que antes de te beijar, eu passo a língua pelos lábios. Pra retirar os alfinetes de lá. Mas sempre tem um deles que é mais teimoso e se oculta habilmente na dobra entre o "te" e o "amo".

Se serve de consolo, posso dizer que, todo dia, quando vou beber mais alfinetes, eles também sentem o gosto do teu nome, que trago sempre na ponta da língua. E eu sinto, meu amor, eu sinto as espetadinhas, mas elas vão ficando doces ao encostarem no teu nome.