Tuesday, August 29, 2006

Circo

A noite estava escura e ainda podia se ouvir o som dos últimos espectadores que iam felizes pelas ruas batidas de terra. Algumas crianças saíam com algodões-doces e pipocas e ficavam extasiadas lembrando das coisas fantásticas que tinham visto ou sentido.

O palhaço andava tristemente sentido os cheiros e ouvindo os sons da noite. Os operários se esforçavam para guardar tudo pois no outro dia haveria mais espetáculo.

Ele estacou em frente a uma tina cheia de água de onde via o reflexo das estrelas que se moviam disformes na superfície. Não havia lua, mas apesar da pouca luz ele reconheceu o rosto da trapezista ao lado do seu.

- Boa noite, Chico

- Boa noite, Carla - ela já havia se despido do macacão azul e da maquiagem colorida e o observava sorridente, com seu vestido verde estampado de margaridas coloridas. Eram grandes amigos. Luiz, o palhaço Berinjela esava vestido a caráter, exceto pelos grandes sapatos que carregava nas mãos. Ele sorriu pra ela, tirou o nariz vermelho e a peruca e mergulhou o rosto na água fria, esfregando com força para tirar todos os vestígios de tinta. Depois disso ele disse:

- Eis uma noite digna de Baudelaire. Vejo as Flores do Mal em todas as partes...

- Não acho que seja hora de falar de romantismo. Eu nem trouxe meu Bordeaux - ela sorriu mansamente. É estranho como certas pessoas tem esse dom de sorrir mansinho, como se nada as afligisse. Carla era assim.

- Então falaremos de quê, Marx, existencialismo, a Guerra?

- Falemos do que te aflige, Luiz. - Ele se lembrou porque ela lhe era tão familiar. Ela cheirava como sua mãe.

- Então teremos que falar de Marx, guerra, existencialismo... Eu prefiro Baudelaire.

- E eu prefiro Balzac.

- Falemos de Proust..

- Niestche...

- Alain Delon?

Ambos riram muito. No momento não poderia haver nada mais engraçado do que Alain Delon. Mas o sorriso se desfez e só restou o silêncio constrangedor. Ela perguntou:

- Você sempre quis ser palhaço?

- Não, nunca. Na verdade eu queria ser poeta ou romancista. O problema é que os palhaços sem talento ganham bem mais. - Depois de uma pausa ele continuou - É engraçado como a vida toma rumos inesperados. Mais ainda quando se pensa em tudo que tivemos que viver para estar onde estamos.

- Agora eu entendo a fixação em Baudelaire. Hoje você está muito sombrio.

Perto dali o domador ajudava a guardar os elefantes. Ele acertava várias chicotadas no animal.

- Cada novo dia é uma chicotada certeira no meu coração...

Não se sabe porquê ela teve uma vontade imensa de beijá-lo. de agarrá-lo à força e levá-lo para o seu quarto, onde se amariam por toda a madrugada. Ela amou-o desde o dia em que lhe emprestou um pequeno volume em francês de Noites Brancas do Dostoiévski. Porém, não se sabe por pudor ou vergonha, jamais teve coragem de dizer o que sentia. Seu sentimento não era pra ser dividido entre as pessoas: era uma jóia preciosa pra ser sempre guardada e lapidada.

Será que ele sentia o mesmo? Ela olhou profundamente para as feições dele. O quê elas diziam? Quanto dela podia vislumbrar em seus olhos?

Foi quando ela percebeu quão fixamente ELE olhava para o domador: era a mesma perplexidade e o mesmo sentimento. Só podia ser amor...

Carla foi embora sem se despedir e chorou mansamente por toda a madrugada...

Friday, August 25, 2006

Memórias De Um Cafajeste Incorrigível

Parte I – Reminiscências

Não sei ao certo o motivo que me levou a escrever essas memórias. Na verdade eu sei sim. Essas memórias são como quaisquer outras memórias. Elas estão aí pra eternizar o seu personagem principal. Belo jeito de começar um livro, mentindo pra mim mesmo. Ora, mas qualquer cafajeste que se preze tem de mentir com certa freqüência. Logo, todo político é um cafajeste em potencial.

Talvez vocês achem pretensão demais de minha parte achar que eu mereça ser eterno. Eu concordo, eu não mereço ser eterno, mas acho que meu exemplo merece. Eu faço um grande trabalho social aqui. É árduo, difícil, tem poucas recompensas, momentos de introspecção. As mulheres acham que é fácil ser um cafajeste. Pelo contrário, eu preferia mil vezes ser corretor da bolsa de valores. O problema é que eu não tenho muito talento pra isso...

Mas pra ser cafajeste? Ah, a cada dia eu mais tenho certeza que nasci pra isso. Uns nascem pra mártir, uns nascem pra líder e uns nascem pra fazer as mulheres se sentirem as coisas mais desejadas do mundo.

Pra conquistar uma mulher eu sou capaz de qualquer coisa, dentro do meu código de ética, é claro: o mundialmente conhecido Manual do Cafajeste. Não se enganem, mulheres, todos os homens do mundo já leram esse manual. Todos os homens têm um pouco de cafajestes, líderes e mártires dentro de si. E normalmente é o lado cafajeste que aflora com mais facilidade.

Mas eu não posso falar muito sobre esse Manual. Existe uma maldição sobre os que revelarem seus segredos. Dizem que o homem que mostrá-lo a uma mulher imediatamente sofrerá um acidente, viverá muitos anos e será eternamente broxa. Acho que a parte final é que faz com que nenhuma mulher tenha lido esse Manual até hoje.

Mas eu citarei algumas partes importantes pra justificar minhas atitudes e pra que vocês mulheres percebam que no fundo, no fundo, as atitudes de nós cafajestes são só para defendê-las da gente. Sabemos que mulher que se apaixona por um de nós sofrerá eternamente da dúvida, da incerteza e do chifre. É inevitável, uma vez cafajeste, sempre cafajeste...

Mas não nos culpem. Eu pretendo provar que somos um mal necessário. Nenhuma mulher deveria se casar sem antes ir pra cama com um cafajeste. É preciso comparar pra ter certeza de que não está se entrando em nenhuma furada. Depois de casadas as mulheres deveriam experimentar doses homeopáticas (ou não) de cafajestagem de vez em quando.

Essas linhas também são para os maridos. Sabemos que para que um relacionamento dure é preciso amor, confiança, carinho. Mas todo homem sabe que na hora capital a mulher prefere um bom cafajeste de vez em quando. É preciso ser esse homem, esse cafajeste, esse marido insaciável, inesgotável para satisfazer os desejos femininos.

Que homem não gosta de se sentir desejado, amado, seduzido? Que homem não gosta que uma mulher se arrume toda e o espere na cama louca de desejo durante noites a fio por causa de algo que a gente disse, que a gente fez ou que intencionalmente a fizemos sentir? Que homem não gosta de uma mulher insaciável, sempre à procura de novas formas de amar e de dar prazer?

Isso é uma necessidade. Isso é uma força a serviço da humanidade. Nós cafajestes temos participado ativamente da construção da história e temos dado nossa contribuição em momentos capitais. Homens e homens morreram em milhares de guerras, mas cafajestes como eu conseguiram garantir a paz em diversos momentos da história.

Que seria da literatura sem a Ilíada de Homero? Saibam que tudo começou com um cafajeste que seqüestrou Helena, a mulher de Menelau. Que seria de nós sem a figura do sedutor incorrigível, don Juan, Casanova e tantos amantes latinos? Nós revolucionamos a arte, a história, a música, a poesia. Somos inspiração para milhares de pessoas ao longo dos tempos. Que é o carisma do líder senão uma grande cafajestagem? E Dom Pedro I, não era um grande cafajeste a serviço da estabilidade da monarquia? Se não fosse ele o insaciável sedutor a república tinha sido proclamada muitos anos antes...

Nós estamos em todos os lugares, em todos os momentos. Nós escrevemos páginas da história com gemidos, amor e sangue e eu venho por meio dessas memórias redimir as injustiças que sofremos por causa de preconceitos infundados que não tem mais razão de existir.

Somos a força motriz da revolução. Somos os olhos que espreitam nas tardes úmidas e bebem o vinho da felicidade em largos sorvos. Somos a epopéia carnavalesca em um grande espetáculo sob os céus.

Mulheres, aguardem. Homens, aproveitem. Bebam comigo dessa taça de grandes dias de glórias. Sintam os pêlos eriçados, as mãos intumescidas e as calcinhas, bem, deixemos isso para o próximo capítulo...

Monday, August 21, 2006

Acidente

Todos os dias era sempre igual. Ele entrava, pagava a passagem, passava a roleta, contava três fileiras e se sentava do lado esquerdo do ônibus, do lado da janela. Ele se sentava no meio porque sabia que em colisões frontais o povo da frente sai voando pelo pára-brisa. Em colisões traseiras o povo de trás é arremessado pra cima e bate nos bancos da frente e no teto. Já o povo do meio sempre sobrevivia em colisões, exceto em cruzamentos. Mas batidas em cruzamentos sempre foram raras. Ele tinha um medo terrível de andar de ônibus.

Depois de todo esse ritual ele ficava lá, apreensivo. Olhava pela janela, sempre contando as paradas. Uma, duas, três, como demorava pra chegar a décima...

Nesse meio-tempo o ônibus ia enchendo. As cadeiras que começavam vazias iam sendo ocupadas. Logo alguns ficavam em pé e ele não podia mais ver o outro lado do ônibus. Ai, como demorava a décima parada...

Ele não conseguia ficar quieto. O pé se movia vigorosamente, incomodava a pessoa do lado, assobiava, ficava se coçando. Não que demorasse muito a chegar na décima parada depois da dele, eram no máximo quinze minutos. O problema é que ele não conseguia relaxar enquanto ela não entrava. Ele ficava pensando em muitas coisas pra dizer, pra fazer, em como falar com ela, mas nunca fazia absolutamente nada. Ficava naquela terrível apreensão que só terminava quando ela entrava.

Pronto, décima parada. E ele a via de longe a fazer sinal para o ônibus, levantando o braço direito enquanto segurava a bolsa e os livros com a mão esquerda. Tinha um cabelo moreno nem liso e nem cacheado que o vento deixava revolto. Quando o ônibus parava ele a via correr, os seios a balançar levemente (ele sempre notava esse detalhe), a bolsa pendendo de um lado a outro...

E ela passava a roleta, contava três cadeiras e ficava em pé sempre do lado esquerdo do ônibus. Obviamente ela sabia que esse era o lugar mais seguro do ônibus, exceto em cruzamentos. Eram almas gêmeas, ele sempre soube. Só podiam pensar igual.

E, todos os dias ele se oferecia para segurar a bolsa e os livros. Ela se abaixava, sorria e ele via os seios abaixarem. Ela lhe dava os livros e ele sentia, irremediavelmente o cheiro maravilhoso de Kaiak masculino. Ela também gostava de perfumes fortes.

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E depois de um tempo a pessoa do lado saía e ela sentava ao seu lado, sempre agradecida. Ele virava o rosto para o outro lado e ficava completamente quieto, as pernas fechadas o máximo possível para não incomodar nem um pouco. O corpo retesado, as mãos sobre os livros e estes sobre as coxas. Ele tentava esconder toda a fascinação que ela lhe causava.

Ai, como era penoso quando algum elemento destes não acontecia! Às vezes algum desalmado ficava em pé no lugar dela. Às vezes chovia ou ocorria algum problema e ela não aparecia e ele ficava lá, desolado, o coração batendo mansinho a esperar o próximo dia.

Quando ela aparecia o dia ficava alegre, ele se esforçava mais na universidade. Ele um dia seria psicólogo. E ela? O que ela seria? Ele sabia que ela estudava numa outra faculdade, duas paradas depois da dele pois tinha visto o emblema de lá em uma agenda uma vez. Ela estava sempre muito arrumada. Provavelmente tinha um trabalho ou estágio.

Ele podia passar horas nessas suposições, pensando nela quando voltava, sempre no mesmo ônibus as quinze pras seis. Ela nunca pegava nesse horário.

Pra ele sempre foi penoso ficar perto das mulheres. Elas tinham alguma coisa que o deixava nervoso. Ele sempre foi muito paradão, muito acanhado. A timidez era um traço tão marcante de sua personalidade que até suas roupas e sapatos deixavam isso transparecer.

Ela seria tímida também? Porque nunca puxava assunto? Ele provavelmente nunca saberia e se censurava por isso. Maldição, até quando ele seria desse jeito?

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E os dias, semanas e meses passaram nessa angústia. Até um dia que ela não veio mais, sem nenhum motivo. Foram dois dias, três, uma semana e nada. E ele resolveu desistir daquela paixão absurda. Mais uma vez ele foi vencido por não fazer...

Resignado, ele tocou a vida, um dia de cada vez, mas jamais ele pôde esquecê-la de verdade. Ela ficou naquele lugarzinho onde os homens guardam suas melhores lembranças.

Até que um dia, irritado com um colega que não tinha feito direito um trabalho, ele teve de voltar pra casa mais cedo para terminá-lo. Pegou o ônibus da hora do almoço e esperava voltar pra aula do fim da tarde. Como sempre, pagou o cobrador e foi se sentar na terceira cadeira do lado da janela. O problema é que ela estava ocupada. “Mais essa pra completar meu dia”, ele pensou. Indignado, ele foi se sentar na quarta cadeira.

O sol a pino e o dia seco e quente só serviam pra piorar o seu estado de espírito. Nenhum vento e o ônibus mal se mexia por causa do trânsito.

De repente, ele sentiu o cheiro. Ele conhecia aquele cheiro. Era isso mesmo, KaiaK masculino. Seria ela? Como ter certeza sem chamar muita atenção.

A pessoa do banco da frente era uma mulher, com óculos escuros e cabelo vermelho, cortado bem curto. Não havia como ter certeza, mas ele via uma grande semelhança.

Quando ele estava prestes a ter certeza, o improvável aconteceu: um carro parou bruscamente na frente do ônibus que teve de frear, mas não a tempo de evitar uma batida. Os livros dos dois voaram pra frente e ele acertou com força o joelho no banco da frente, urrando de dor. Vidros se estilhaçaram e um caminhão acertou o ônibus por trás, fazendo com que nosso herói batesse no seu banco num novo choque e acertasse a cabeça no vidro, trincando-o.

Ele sentiu o sangue escorrer da têmpora esquerda e uma tontura estranha. O joelho doía muito. Não haveria como evitar o desmaio. Porém, antes de desfalecer ele olhou para o banco da frente.

Desnorteada a mulher virou para trás. Os óculos escuros tinham se trincado e ele pôde vê-la nos olhos. Eram os olhos negros de jabuticaba que ele conhecia. Foi aí que tudo ficou escuro...

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– Você está bem? Por favor, fale comigo.

Ele não tinha ainda voltado completamente a si. Como ele não respondesse, ela repetiu. Ele respondeu que sim. Tentou erguer-se, mas o joelho doía muito. Foi quando ele olhou para quem estava perguntando. Era ela.

– Eu sou médica. Meu nome é Paula, por favor, fique deitado, já chamamos o socorro. Você vai ficar bem. Qual é o seu nome?

Ele não pode conter a alegria. Ela se chamava Paula.

– Sou Luiz, muito prazer. – num comentário absurdo ele disse – Acho que seria bom você cuidar dos outros passageiros. Eu estou bem.

Nesse momento chegaram as primeiras ambulâncias, em algazarra. Eles tinham batido em frente ao hospital.

– Eu acho que agora não será necessário – e ela sorriu, com dentes brancos e tortos. Será que ela o reconhecia? Ele tentou decifrar aquele sorriso, mas não teve como ter certeza. Ficaram acanhados, um olhando para o outro, sem assunto. Num salto ela se levantou e passou a juntar os livros dele que estavam espalhados pelo ônibus.

– Não precisa – ele disse, envergonhado.

– Precisa sim, foram cento e doze vezes que você carregou os livros pra mim. Seria uma indelicadeza da minha parte se eu não fizesse isso pra você uma única vez.

Ele sorriu mansinho e a olhou nos olhos e sentiu uma alegria maior do que qualquer outra. É claro, isso foi antes de chamá-la para ir ao cinema e dela se oferecer para trocar os curativos dele...

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Ela era ortopedista e cuidou do joelho dele nos meses seguintes, sem cobrar um centavo. Foram cento e doze dias de fisioterapia antes do pedido de casamento.

Saturday, August 19, 2006

Refogado

A casa está cheia de sabão. Ele, suado e sem camisa, puxa a água com o pequeno rodo e a joga para fora. Depois disso enche o balde amarelo de água e fica a secar o chão com um pano macio. A sala, logo depois a cozinha. Cheiro de cebola e alho refogado. Ele adora esse cheiro...

De repente ele pára e a observa. Um pequeno short, a blusa molhada, concentrada ela cozinha. A nuca, o rastro de cabelo vermelho. Ele adora vermelho. Viva Lênin. Viva a revolução...

E ela o sente de olhos fechados. As mulheres sempre sentem isso. A atração do homem, a entrega voluptuosa, o coração descarnado que bate.

E assim ela sente as mãos molhadas e o leve arrepio. Depois a boca a procurar a nuca, o pescoço, a bochecha e finalmente a boca desejada.

O beijo vem, elétrico e a leva a montes inesperados. Os lábios dele a percorrem, pelos seios, barriga, nádegas e pelo sexo

Eles se beijam nus, derrubando panelas, quebrando pratos e bacias.

Um e outro se entregam e, olhos fechados, peito arfante, se amam sobre o mármore da pia...

Thursday, August 17, 2006

Fático...

Não, não me toques deste jeito, com vergonha. Eu prefiro o teu desprezo, tua ira, teu ódio carnal. Não me toques com os dedos, não me toques com a língua, ou as mãos. Isso só não basta. Eu te quero toda e muito mais.

Mais do que os suspiros, os gemidos de gozo, quero os gritos dilacerantes, os gritos estupidificantes, capazes de abrir os céus e se derramar para a redenção dos homens. Quero-te em alma e mais ainda, em propriedade, em sagacidade, em luta comigo e contra mim, em sangue, em chama ardente, fogo da montanha da perdição, alimentado pelas generosas sanhas de milhares de vidas que se perdem em cada gozo meu...

Quero que te rasgues, que te firas, que me firas e tires de mim todo o meu ódio, minha paixão, minha fúria e minha glória.

Dispa-se, não só de roupas, de muito mais. Dispa-se da vergonha, do ócio, do tédio, dos teus sentimentos mundanos. Eu te quero inteira, toda tua atenção, toda vasão, toda importância, teus pensamentos, teus excrementos intelectuais, tuas falhas, teus xingamentos.

Não me importa se te entregas uma vez. Uma centena de entregas, um milhar de gozos em cada uma, o orgasmo múltiplo encerrado aflorado em todas elas não será suficiente. Será menos de uma parte do que quero de ti.

Quero sim, no fim da noite, em meio às lágrimas e às dúvidas, em meio ao sorriso gratificado de ti, após a capitulação, que me olhes nos olhos e diga, com a alma: Não há amor sem ti...

Tuesday, August 15, 2006

Querer

Eu escuto as vozes de sultões delirantes nos braços de odaliscas recendendo a sândalo. Eu sei dos músculos escondidos embaixo das camisas dos carregadores. Eu sinto meu coração bater no compasso dos saltos altos batendo no chão. Eu adivinho as matilhas rosnando por uma fêmea no cio. A cidade está no cio.

Eu capto a vibração sutil, os homens que param para olhar a moça bonita usando uma calça justa, e eu sei da satisfação misturada com pudor que ela sente. E eu sei dos desejos, as pessoas voltando pra casa, as camas e as roupas íntimas. Presencio os puxões nos cabelos, e os sussurros e os palavrões. Dentes, língua e fantasias. Eu estou em tudo. Eu sou isso tudo.

Sintonizada com uma vibração suave, eu sei dos pensamentos sujos da cidade. Eu os vejo e vivencio.São milhares de mãos procurando. E, não suportando mais, desafivelo o cinto, desabotôo a calça jeans. O rapaz esperando o ônibus ao meu lado me olha e sabe o que faço, e isso só aumenta meu prazer.

A cidade me compreende, quando o meu grito corta a noite, espantando a solidão e enrubescendo a lua cheia.

Thursday, August 10, 2006

Duo Metálico

- Louco? Nada disso, eu sou excêntrico. Totalmente, completamente, indubitavelmente ex-cên-tri-co. Você consegue me entender, baranga ou vou ter de ir aí te dar uns petelecos?

- Baranga, eu? Qual é o teu problema, guri? Nem barba você tem direito e vem aqui me chamar de baranga? E outra coisa, nem vem com esse negócio de peteleco. Tá pensando o quê? Que tá falando com as tuas negas, é sua bicha....

- Bicha? Ora, por fa-vor. Não vem com baixaria não, que eu desço do salto.

- Desce, desce do salto que eu quero ver. Baitola, bicha, boiola, gay, viadinho, frutinha.

Ele passou a mão pelos cabelos descoloridos e disse:

- Ai, eu não agüento essa mediocridade. Nem falar direito a baranga sabe. Tá pensando o quê, hein? Que todos os homens tem de cair a teus pés? Eu não caio não, feiosa. Eu sou mais eu...

- Ai ai, quem ouve falar assim pensa que é o rei da paróquia, o grande pegador. Tu num pega nem resfriado, seu descarado...

- Descarado mas tu gosta, que eu sei. Tu bem gosta de um descarado de cabelo descolorido - Ele a pegou pela cintura e olhou-a nos olhos, sério. Ela desviou o olhar, mas ele a pegou pelo queixo e a beijou. Mas não foi um beijo normal, eram línguas que se misturavam, ela querendo se desvencilhar. Ele forçava a boca, o queixo, usava toda a força para subjulgá-la num beijo violento, quente, onde as mãos eram parte do espetáculo. No fim ela mordeu a língua dele, fazendo-o gritar de dor. Ela sorriu e disse:

- Ah, e eu sou a baranga, é? - A respiração forte, o cabelo bagunçado, os olhos de tigresa irritada. Ele a olhou e viu exatamente o que queria.

- Cala boca e me beija que eu te dou exatamente o que tu precisa...

E, logo após a pegou pelo queixo, olhos nos olhos, bocas que quase se roçavam. Os mesmo olhos de tigresa. A mesma respiração forte.

- Quem é bicha? Quem é viadinho? - a voz era quase um sussuro...

- É você - a voz insolente, o desafio, o jogo chegando ao xeque.

E ela o beijou, entregue. Ele a tomou pelos braços e avassaladores se entregaram com fúria a um turbilhão de emoções contidas pelos anos.

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- E então? Sou bicha ainda? - A voz ressoava pelo quarto sujo do hotel barato.

- É sim. Minha bicha louca. - Ela se aninhou nele por baixo do lençol. As pernas enlaçavam o tronco e ela brincava distraída com as curvinhas da barriga dele.

Ele olhava pelos reflexos que o sol deixava pela janela e sentia o fresco da brisa da tarde. Engraçado como agora as coisas faziam um outro sentido, como se fosse um tipo estranho de estremecimento. Foi aí qu ele percebeu o óbvio.

- Tu já amou alguém na vida, baranga?

Ela o olhou nos olhos. Nesse momento eles entenderam. A Bicha e a Baranga foram feitas uma pra outra....

Vodka e suco de laranja

Bar. Meia luz. Detestável fumaça de cigarro, mas que até combina com o ambiente. Dizem que a fumaça torna as coisas indecifráveis. Como se precisasse.

Ela sentada no banquinho alto, imersa na música. Ninguém presta atenção nesse cantores de bar, mas ela presta. Pede músicas. É a primeira a aplaudir e a última a parar. Fecha os olhos e acompanha.

- Com licença?

Abriu os olhos.

- Como?
- Com licença, talvez eu possa lhe pagar um drinque?
- Te pagar.
- Como?
- "Talvez eu possa te pagar um drinque." Não "lhe pagar".
- Posso ou não posso?
- Desde que eu possa escolher.

Cheia de segredos, cochichou algo no ouvido do garçom.Quando chegou, o copo era alaranjado.

- Você é diferente. Ninguém presta atenção em cantor de bar. Você até pediu uma música, que eu vi.
- Diferente, sim... E quem não é? - sorriu - Também, nem todo mundo tem um amigo cantor de bar.
- ...!
- Foi você quem disse que eu era diferente. A vantagem de ser amiga de artista é que a gente fica conhecendo os lugares divertidos.
- Então você deve ter tantos lugares divertidos pra mostrar...
- hum. Too bad... Muito fraca essa. Eu vou ao banheiro, e você tenta de novo quando eu voltar, tá?

Ele já estava pensando seriamente em fugir daquela louca. Mas lembrou que antes de ir, tinha de pagar a conta, o que incluía o drinque dela. Será que dava tempo de pagar e sair correndo? E se o táxi demorasse? E se o drinque dela fosse muito caro?! Aquela cereja na borda era índice quase certo de bebida mais cara que o petróleo do Kuwait, e...

- Você teve bastante tempo pra fugir, devia ter aproveitado. Now is too late, dear.
- Eu não costumo sair correndo no meio da madrugada em ruas desertas... Qual o seu nome?
- O Chico já fez uma música com o meu nome.
- Carolina?
- No, sweetheart.
- Beatriz?
- Não...
- Isabela?
- Isabela é do Lúcio Alves!
- ...Vou te dizer, não entendo muito de Chico Buarque.
- Perdeu dois pontos comigo, darling.
- Fui reprovado?

Ela, gentil, tirou o batom da bolsa. Segurou no pulso dele e esticou sobre o balcão. Ele pensou rapidamente em um exame de sangue que tinha feito antes de conseguir emprego, mas a enfermeira não tinha aquele decote.

- Aqui, handsome. - Ela pegou o batom e ESCREVEU no braço dele. Confirmado: era totalmente doida. - Se descobrir meu nome e for me encontrar no lugar certo, passa de ano.

E saiu sorridente. Ele leu. "Pague a conta e levante vela." E deixou o telefone. Maldita. Agora ele não poderia simplesmente telefonar.

Chamou o garçom. A cereja mentiu, o drinque era até barato. E, quando pousou os olhos na comanda, entendeu. Suco de laranja e vodka, Sex on the Beach. Ai, ai. Maldita.

Antes de ir embora, cochichou no ouvido do cantor do bar. O músico fez que sim com a cabeça, e começou a dedilhar os acordes certos.

Ele saiu do bar e foi encontrar Januária na praia.

Sunday, August 06, 2006

Susane

Ele andava distraído pelo traçado irregular das ruas de barro da pequena favela cercada de prédios. Na madrugada fria, a garoa e a neblina obscureciam ainda mais a paisagem enquanto ele se centrava nos seus pensamentos.

Era a boca carnuda, o cheiro rançoso da brilhantina e do perfume barato das mulheres do Cabaret Royale, onde ele havia se esbaldado com a nova francesa, chama Rochelle. Ela, com o sotaque forçado, as tetas caídas e os olhos baixos. Ele, barrigudo, velho, derrotado e infiel. Retratos do pesadelo suburbano.

Sim, houve o beijo negado, o segurança e a expulsão violenta. Sim, a embriaguez e o vômito no poste apagado no fim da rua obscura no bairro de ...

E a lágrima fria e rotunda misturada com as gotas da garoa eterna, a garoa paulistana, o cheiro pestilento dos roedores e das baratas que infestam os bueiros. E a lembrança dela, Susane, a foto quase invisível dentro da carteira.

E ele chorou...

Mas não por mais de um segundo. Não por mais de uma lágrima. Não por mais de uma noite, enquanto voltava para o frio e solitário quarto, no meio do morro, cheio de goteiras e cheiro de homem.

Não por mais de um segundo antes do estampido seco do revólver.

Não por mais de um segundo, antes de acordar num céu azul cheio de Susanes sorridentes....

Thursday, August 03, 2006

Te encontrar em mim

Uma parte tua ficou comigo, e me acorda toda madrugada.
Olho no espelho, procurando onde terás permanecido. Estás, sutil, no círculo negro dos meus olhos. Mas não apenas lá. Desvencilho-me das roupas, e te procuro. Onde estás? Minhas mãos deslizam seguindo o teu rastro impresso no meu corpo.
Estás sob minha pele, secreto, oculto, íntimo. Caminho na trilha onde ficaram tuas pegadas, e quase percebo, os ecos da tua voz e os sons de tempestade, murmúrios do tempo em que gravaste no meu ser os teus sinais. Abaixo da pele, onde os outros não vêem, perto o bastante para tirar meu sono e me guiar na busca.
Avanço em minhas próprias planícies,atravesso meus quilômetros seguindo tua pista, e então estás aqui.
Te alcanço e toco o que, sendo parte tua, mora em mim. Sobrevém o tropel de cavalos, e os troncos centenários caindo ao chão, demolições e estilhaços, e quatrocentos dragões incendiando o espaço entre os planetas.
Cansada e suada, entendo: a parte que ficou comigo foi Tua Ausência. E tua ausência salgada vaza dos meus olhos. A elimino de dentro de mim, e me levanto, pois é preciso preparar a vinda de tua outra parte.
Há Tua Presença.
Há Tua Presença em um lugar.
Há Tua Presença a se aproximar.

Wednesday, August 02, 2006

O ponto de vista do outro

A gente não quer que aconteça. Nao quer. A gente quer andar decentemente, sem chocar ninguém.

Mas aí, ela prende o cabelo e mostra a nuca. Por que deste nuca a ela, Deus? E a gente fica sentado lado a lado, conversando, os dois estão esperando o outro tomar a iniciativa. De beijar ou ir embora, e eu racionalmente prefiro que ela vá embora, se despeça dizendo que foi super legal conversar comigo, mas dentro de mim algo lateja, e o latejar não é só dentro de mim, e eu tento disfarçar. Que merda ser homem, viu?

E ela toma a iniciativa, "tchau, a gente se vê semana que vem", e vem me dar dois beijinhos. Dois beijinhos o cambau, deixa eu cheirar o teu pescoço, beijar a tua orelha, apertar a tua cintura. E eu faço isso mesmo, sei que ela veio se despedir só pra me forçar a tomar uma atitude,eu sei, ela não queria ir embora. Quem quer ir embora simplesmente vai, diz tchau e benção,não avança toda dengosa, toda cheia de beijo estalado na bochecha. Vai pro Inferno, vai pra casa, vai pra outro lugar, de preferência vai de gola rulê, que essa tua nuca devia ser colocada no Index Prohibitorum, ad eternum, mater nostra ora pro nobis! Orai por mim, que sou pobre vítima dessa nuca psicopata. E ela deu o beijinho estalado e falou no meu ouvido, "você tá triste pois não deixa ninguém cuidar de você", desgraçada, desgraçada, ela inclina a boca perto do meu ouvido e o tendão do pescoço a dois centímetros da minha boca, ela sabe, ela faz de propósito. Mas eu devia ter me feito de desentendido, devia, devia ter dado os tais dois beijinhos e dado no pé. Agora, como eu faço pra tirar a minha mão de baixo da blusa dela?

Hum...Eu arrumo um jeito depois.