Wednesday, September 27, 2006

Bahamas

Não que tenha sido fácil arrumar tudo assim, sem planejamento. Sabe como é, né? Deixar tudo e ir pras Bahamas num cruzeiro espetacular não é uma coisa que se faça todos os dias. Mas, pra certas coisas na vida a gente sempre dá um jeito. A sorte era que as passagens eram pra dali a um mês. E foi uma complicação arrumar desculpa no trabalho, comprar roupas, ajeitar passaporte. Mas todos os dias quando eu chegava em casa e olhava, pendurado no meu guarda-roupa, aquele vestido negro e me lembrava daquela morena, ah, eu ficava louco... Pela caixa da encomenda eu pude finalmente saber seu nome: Carolina. O problema é que não vinha com um endereço de remetente, só a caixa postal. Então, se eu fosse vê-la seria apenas na viagem. Ah, é claro, tava tudo certo, vieram também passagem de avião e um nome de hotel em Natal onde eu teria reserva. Aquela morena tinha pensado em tudo. E eu fiquei um mês sentido o tecido do vestido e lembrando de cada detalhe daquela mulher maravilhosa que eu enfim encontraria. Sabe aquela coisa que a gente sente no estômago quando é bem jovem, aquela agonia boa de lembrar que tem alguém muito importante pra gente? Então, era mais ou menos isso.

Esses sentimentos malucos iam se misturando em mim e me fizeram perder o sono, perder o equilíbrio. Os últimos dias foram os piores, mas nem por isso menos gratificantes. Era uma olhação no relógio, uma vontade de fazer andar mais rápido o tempo...

E mesmo no avião, a caminho de Natal, nenhum sossego. A viagem era curta, menos de quatro horas, mas quem disse que eu conseguia ficar quieto? Derrubei o lanche do avião, fui ao banheiro várias vezes, ficava curioso lendo o livro do meu colega de banco. E lá da janela eu via a terra andar bem devagar e meu coração se aproximando cada vez mais dela.

Afinal de contas o que eu sentia mesmo por ela? Paixão? Desejo? Uma vontade incrível de vê-la nua de novo? Quem foi que inventou essa mania feia de classificar as coisas que a gente sente? A gente sente alguma coisa e pronto.

E quem inventou todas essas mesuras, essas conveniências, essas regras bobas pra se relacionar com o sexo oposto? Não seria muito melhor dizer que ela é atraente e que desejo ser dela por pelo menos uma noite? Oras, o que eu poderia pensar? Eu estava indo encontrar com a mulher mais inalcançável que eu jamais tinha visto e isso não me deixava nem um pouco contente.

Deve ter sido por isso que quando o avião chegou ao aeroporto eu resolvi permanecer sentado no meu lugar a olhar pela janela os prédios de Natal. Aquilo era tão absurdo que não faria a menor diferença se eu continuasse ali. Foi quando a aeromoça apareceu:

– O senhor está se sentindo bem?

– Estou ótimo, apenas apreciando a cidade

– Sua parada é aqui, senhor, por favor desembarque.

– E porquê eu faria isso?

Ela me olhou atônita. A resposta parecia óbvia demais pra ser descrita em algum manual de como as aeromoças devem se portar. A inexpressão daquele rosto me fez levantar e enfrentar meu destino.

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Mas afinal, eu esperava que a aeromoça fosse algum guru hindu disfarçado pra me dar conselhos sobre a vida espiritual? O absurdo de toda essa situação estava me dando nos nervos. Irritado, fui pegar minhas malas e olhando as pessoas com uma nítida má vontade, sentia como se elas se afastassem de mim. Ah, todos que vão à merda. Ninguém tem nada a ver com minha vida.

– Achei que você não fosse descer.

Meu Deus, o que era aquilo? Quem já sentiu isso sabe exatamente o que é. As pernas amolecem, o corpo inteiro sua gelado, mãos, sovaco, pescoço e a vista parece que vai ficando mais e mais estreita até o ponto que a gente não sabe bem se está dormindo ou acordado. Era ela. Nem nos meus maiores sonhos eu podia imaginar que ela mesma iria me buscar no aeroporto.

E agora, imbecil? O que você vai fazer? Ande, ela está esperando uma atitude sua

– Carolina, que bom te ver depois de tanto tempo – e um abraço apertado como se fôssemos velhos amigos. Só que nunca tínhamos tido nenhuma conversa até então. Como você está? Há quanto tempo chegou à cidade?

Não sei se era por estar esperando outra coisa ou por estar já se arrependendo de ter me aturar por três semanas no barco, ela demorou a responder. E respondeu monossilabicamente.

E os monossílabos se tornaram um tremendo silêncio constrangedor dentro do táxi. E continuou na recepção, depois no elevador e finalmente quando nos despedimos ao entrarmos nos nossos quartos. As portas eram frontais.

E eu fiquei atrás da porta fechada, olhando através dela como se fosse possível continuar a vê-la.

E chorei mansinho antes de entrar no meu quarto...

Eu estava apaixonado pela Morena Inalcançável...

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A noite continuou monótona e triste. No rádio eu ouvia as músicas regionais, todas muito alegres, contrastando com meu estado de espírito. Via e ouvia o mar na praia de Via Costeira e bebia uísque com gelo. Uísque é uma bebida triste, assim como o mar...

E ouvi baterem na porta. Era ela com um Campari na mão. Levei-a para a sacada e ficamos a olhar a mesma paisagem.

– Quer sair hoje à noite?

– Não, prefiro descansar, o barco sai cedo amanhã. E eu não sou lá um cara muito festeiro.

– Na verdade nem eu sou. Você já jantou? – ela estaria triste? Porquê eu sentia a voz sair como um fiozinho quase inaudível?

– Estava pensando nisso, anfitriã. Alguma sugestão?

– Não tenho fome, mas lhe acompanho ao restaurante.

– É melhor não. Aqui é bem aconchegante. E não seria nada bom se só um de nós comesse. Poderiam pensar que eu não passo de um glutão

Ela sorriu. Não me lembrava de ter visto isso alguma vez. Ela chegou bem próxima, tão próxima que pude voltar a sentir o seu perfume. Ainda era o mesmo...

– Porquê você resolveu me dar tudo isso?

Ela estava agora aninhada no meu peito. Ela podia ouvir meu coração batendo forte por ela? Será que ela sabia o que eu sentia? Eu pude perceber o estremecimento e a tristeza passando por seu corpo.

– Desculpe, fui indelicado, não deveria ter perguntado.

– Não, tudo bem, é seu direito. – Ela respirou fundo e acrescentou – Já sentiu que toda a tua vida é alguém? Que tudo o que você é, o que você queria ser é uma única pessoa? Que alguém é tudo o que você sempre quis?

– Talvez sim. – Eu respondi sombrio demais. Levei-a para a mesa, onde nos sentamos frente a frente. A conversa não deveria ser nada fácil.

– Era meu tio. Dia após dia eu o vi definhar no hospital. Ele me deu tudo o que tenho, pagou meus estudos, me deu amor, carinho, atenção. Me fez ser o que sou, cuidou de mim cada dia de minha vida depois que meus pais morreram. Tínhamos só um ao outro. Nunca confiamos em ninguém. E fora tão horríveis todos aqueles dias.

– Você chorava pela morte dele? – Perguntei, colocando mais uísque.

– Não. Não era só isso. Eu me culpei muito pois por três dias eu não verti nenhuma lágrima por ele. Eu não conseguia perceber o quanto eu o amava. Pra mim ele ainda estava li, me olhando, me mimando. Mas o pior problema era a certeza de ser completamente só, de nunca poder confiar em mais ninguém.

– E foi assim que você me encontrou chorando na rua, sabe? Antes de você passaram oito pessoas, nenhuma delas nem olhou pra mim. Mas você olhou, voltou, veio cuidar de mim, me consolar. Me fez café (rsrsrs). Ninguém daquela rua, daquela cidade faria isso por mim. Mas você fez. Por quê?

Nós dois chorávamos. Oras bolas, porquê eu estava chorando afinal de contas? Eu nem conhecia o velho tio dela. Levantei e fiquei olhando o mar. Porquê as perguntas mais fáceis de formular são as mais difíceis de se responder?

Virei-me, ela estava atrás de mim e me olhava interrogativa. Apaguei a luz e peguei seu rosto ternamente e coloquei entre as mãos, olhando nos seus olhos. Só assim teria coragem de respondê-la.

– Porque não posso suportar a idéia de ver a morena mais especial do mundo chorar.

Era possível sentir o calor da respiração, tão próximos estávamos.

– Ninguém nunca disse isso pra mim.

– Se você deixar não será a última vez.

– E porquê eu deixaria?

– Porque eu te amo.

E foi o beijo mais mágico que eu já tive. A gente sabe quando é um desses momentos inesquecíveis quando ouve um sino tocando dentro da gente. Eu ouvia as badaladas da praça de São Pedro.

E foi assim, lentamente que nos amamos ouvindo o barulho do mar.

E quando ela se aninhou em meu peito naquela noite e dormimos abraçados que percebi que nunca fui tão feliz.

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Na outra manhã embarcamos juntos pras Bahamas, o céu lindo, completamente azul e o sol amarelo foram a marca do princípio daquelas férias. Eu tinha alcançado a Morena Inalcançável e estava ali para fazê-la feliz. Para sempre...

Sunday, September 24, 2006

Ana

Ana

Eu às vezes fico pensando o que me faz preferir uma mulher sobre todas as outras. Normalmente é uma coisa simples, corriqueira, um mero detalhe que passa desapercebido na maior parte das pessoas, mas que faz toda diferença. Outras vezes é a junção de uma série de fatores isolados que compõem um conjunto, uma obra.

Não, nenhuma mulher me chama a atenção por muito tempo. Dificilmente mais do que alguns dias, na verdade, alguns minutos. E muito raro alguma dessas mulheres chegar a ter contato mais próximo comigo. Essas mulheres, em geral são mais objetos de análise, algo como um livro em língua estrangeira onde se conhece pouquíssimas palavras e não há dicionários disponíveis pra se entender o resto. Pra maioria das pessoas isso pode soar como trabalho inútil e na verdade é já que raramente se escolhendo um livro ao acaso pode se encontrar algo que preste. Porém, não pra mim. Esse jogo é uma das minhas diversões favoritas.

Vejo mulheres assim nos ônibus, nas ruas, nos carros, na televisão, mas caixas de CD’s, nos supermercados. E não pense que beleza é o principal atributo, pois não é. Às vezes é só o som da risada, outras é o perfume característico de mulher, aquele cheiro inexplicável que parece que só os homens conseguem sentir. Outras muitas vezes é a maneira como elas carregam suas bolsas, beijam seus filhos, andam altivas na rua como se o mundo inteiro lhes pertencesse.

Não confundam essa atração com paixão. É algo muito mais profundo, porém mais tátil. Quando uma dessas admiradas vira paixão isso vira um grande problema. Na verdade isso é algo que prende completamente minha atenção e me inspira a escrever histórias. Por isso as mulheres são as protagonistas de meus contos, poesias...

E foi mais ou menos assim com Ana. Ela é um espetáculo de morena, uma mulher linda, deslumbrante, que a princípio não me chamou nem um pouco a atenção. Como eu disse, beleza conta, mas é só um atributo. Um amigo que a viu me descreveu-a com detalhes, falou de seu sorriso, da voz, da maneira com que ela olhava as pessoas. Bem, como eu não a tinha visto, deixei ele falar bastante nela e depois mudei e assunto.

Mas esses dias no MSN, o assunto foi meu último post, sobre uma morena descomunal que deixou um homem louco e que no fim deu uma passagem pra um cruzeiro pelas Bahamas como agradecimento a ele.

Esse amigo me perguntou uma série de detalhes sobre a história (muita gente costuma fazer isso, já que eu deixo várias lacunas nas narrativas) mas eu percebia que o assunto que o intrigava era outro. Ele procurava alguma maneira de mudar de assunto, de compartilhar algo comigo. Depois de um tempo, ele abriu o jogo: a cada linha que lia da história ele se lembrava da Ana.

Ela era sua Morena Descomunal...

Claro, fiz questão de ver a foto dela no orkut, de ouvir com mais atenção tudo o que ele dizia dela. Ele disse que a fez ler a história e que ela achou muito interessante...

Oras, maldição, a tal Ana acabou virando personagem de uma das minhas histórias sem que eu soubesse.

Engraçado é que essa Morena Descomunal que eu descrevi no último conto jamais existiu. Era a junção de um monte de morenas inalcançáveis que eu vejo pela rua. Porém, esse meu amigo viu em Ana cada um dos atributos dessas morenas. Será que existe mesmo uma mulher assim?

Eu sempre preferi as ruivas, mas as morenas não ficavam muito atrás. Elas têm algo diferente, uma maneira especial de sorrir, um traço característico no rosto que as fazem inigualáveis. Já as loiras nunca foram muito meu tipo.

E de tanto esse amigo me falar dessa tal Ana eu acabei pensando nela o dia todo. Pensei em escrever uma continuação da história, de fazer os personagens irem pras Bahamas e completar algumas lacunas, mas não consegui. Depois desse meu amigo me mostrar a foto de Ana, ela e a Morena Inalcançável viraram figuras poéticas indissociáveis.

Enquanto eu tentava montar os conflitos entre os personagens, enredo, juntá-los de alguma maneira e julgava o melhor entre os finais apoteóticos propostos, lá ia a tal Ana a me atormentar a razão, a me fazer pensar nas curvas do seu rosto, na expressão indecifrável dos seus olhos quando observava a câmera, nas sobrancelhas, pálpebras, nas linhas delicadas do nariz, na suavidade do toque da mão que segura um copo vermelho.

E penso em como ela se destaca entre suas amigas, todas muito bonitas. É algo muito mais poderoso do que eu poderia explicar. Ana tem uma atitude superiora, algo como serenidade. E eu, poeta e matemático, fui vencido.

Ana foi musa pra mais um post...

Ana também é minha Morena Inalcançável. Pelo menos nessa noite...

Abraços.

Tuesday, September 19, 2006

Morena

Eu não sei direito como isso começou. Eu acho que foi quando a vi pela primeira vez andando de bicicleta pela rua, provavelmente indo pra academia. Era meio longe e obrigava a ir de bicicleta.

Não sei o que eu vi primeiro. Os homens sempre dizem que são os olhos, mas é pra não comprometer. Na verdade o que chama a atenção são outras coisas...

Tá, admito, ela é bonita, mas não é pro meu bico. Eu gosto tanto das morenas de cabelo preso em rabo de cavalo que andam de calça colada em uma bicicleta pela rua que eu não tenho nenhuma pretensão de conquistá-las. Tipo, é que nem quando a gente ouve uma música muito bem composta. A gente tá se lixando pra quem é o compositor, se ele morreu de AIDS ou de overdose, ou foi na cama de uma prostituta. Tá, eu só penso o pior. Ele pode muito bem ter morrido velhinho de pneumunia. Mas o que eu queria dizer é que o que vale mesmo é a emoção...

Então, ver aquela morena às terças e quintas descendo a ladeira de bicicleta era como ouvir a mesma canção de maneiras diferentes a cada vez. Não era nada erótico, ou vulgar. Eu simplesmete imaginava ela antes de vir e ficava pensando nos durantes e depoises...

Mas eu nunca pensei que fosse passar disso. Ora, a gente escolhe algo bonito pra observar e nao pensa que isso vai acabar fazendo parte de nossa vida...

E foi com muita surpresa que eu vi o caminhão de mudanças chegar um dia desses e parar na frente da minha casa. E quem eu vejo comandando a arrumação? Ela.

Claro, eu pensei no pior, que ela era casada, que o marido ia morar com ela, que ela tinha sete filhos (não, era jovem demais pra ter sete filhos...), e todas aquelas coisas. Eu precisava arrumar uma desculpa pra não ficar maluco por aquela mulher.

Mas não. Nas outras semanas eu descobri que ela era solteira, solteiríssima e ia morar naquela casa enorme com seu gato pardo.

E as terças e quintas se transformaram em visões diárias. Eu a via na fila pra comprar pão, colocando as roupas no varal no fim de semana, na parada de ônibus vez ou outra. Nossa, aquilo foi um martírio diário.

E eu não saía da frente de casa. Quando eu voltava do trabalho, no fim do dia, eu sempre passava fortuito pela frente da casa dela esperando vê-la. Esperava ela sair pra comprar pão no fim de semana e marcava meus compromissos pensando em quando eu podia encontra-la sem dar muito na vista.

A coisa tava ficando tão feia que eu até decorei o nome do perfume dela: Kriska.

A vizinhança acabou desconfiando dessa minha nitida contemplação. Mas como é que a gente não admira a Vênus de Milo todo dia se ela tá ali, na frente da nossa janela?

Mas o pior mesmo foi quando eu comecei a ouvir os boatos dos vizinhos sobre ela. Os homens diziam horrores sobre sua tórrida sexualidade, e faziam gestos obscenos quando ela passava. Ah, mas as mulheres eram muito piores. Elas falavam que ela era uma isso e uma aquilo. Não se preocupem, eu não vou dizer o que elas diziam. Mas vocês que tem vizinhas podem muito bem imaginar...

Como ela morasse sozinha foi difícil ser aceita pela comunidade local. E eu a via sempre sozinha a ser difamada por todos os outros vizinhos. É claro, não posso ser falso moralista. É bem provável que muito do que diziam sobre ela fosse verdade e eu queria muito acreditar nisso. O problema é que olhando pra ela a gente nao pensa que isso possa ser verdade.

E foi numa noite de abril em que eu voltei pra casa tarde de uma festa de casamento que a vi sentada em frente a sua casa. Eu a vi de relance e não fosse o cabelo negro nao a reconheceria. Ela estava la, desolada, olhando para o vazio e depois da janela apagada de casa eu podia ve-la, naquela noite escura, sentada no meio-fio. Aquilo partiu meu coraçao. A Venus de Milo estava sozinha e abandonada.

Eu nao aguentei. Abri o portao e parei. Oras, mas o que eu diria? "Nossa, como a noite esta escura!" ou "Voce viu? Plutao nao eh mais um planeta. Isso eh extraordinario!" Maldiçao, no fundo eu sabia que conversar com ela nao seria nada facil. E ali, naquele dilema, olhava pra ela e ficava praguejando pela minha propria falta de iniciativa.

Foi quando a vi esconder o rosto entre os joelhos e começar a chorar.

Era demais. Fechei o portao, atravesei a rua e fiquei parado na frente dela ouvindo seus soluços.

- Qual eh o seu nome?

De todas as perguntas ridiculas faziveis essa era indubitavelmente a pior. Eh claro, ela nao respondeu, limitou-se a chorar mais e mais. E eu sentei ao seu lado e a via tremer devagarinho. Via a chave em uma das suas maos e o vestido negro mal colocado na outra. Podia ver a curva dos seios indecentemente pelo decote. Mas isso era coisa que se pensasse?

Ela me abarçou e eu senti um estremecimento. Tentei ficar impassivel, mas eh impossivel quando alguem chora no seu ombro. Tomei uma atitude. Peguei-a pelos braços, tomei a chave de suas maos e a carreguei ate em casa.

Chegando la, suado, exausto, com os musculos doendo e prometendo entrar pra academia no dia seguinte, a deixei no sofa. O vestido subiu demais e podia ver toda a perna e a calcinha. Ela nao ligava nem um pouco pra isso so se preocupava em chorar. Eu, bem...

Eu fui fazer um cafe bem forte. Afinal, nunca fui um bom conselheiro e nao podia ficar na mesma sala que ela controlando meus pensamentos.

E derrubei umas panelas, tive trabalho pra ligar o fogao, mas quando a agua ja estava no fogo, voltei para ver como ela estava. Bem, o problema era esse, ela nao estava. Procurei-a pela casa, esbarrando no gato, e fui seguindo comodo a comodo, ate encontra-la no banheiro, sentada sobre a privada e soluçando palavras soltas.

Aquilo era demais. Tomara que nenhum de voces nunca passe por essa situaçao. Sem saber muito bem o que fazer, coloquei o chuveiro no frio, liguei e a puz embaixo. Coitada, ela tremia de frio e e vestido colava em seu corpo de um jeito tao indecente...

Bem, provavelmente se fosse comigo eu matava o infeliz que teve essa ideia. Porem, nao sei como, funcionou e ela parou de chorar. Apenas ficou a olhar pra mim, mas como se nao me visse. Ah, eu nao estava com vontade de fazer divagaçoes sobre isso. Peguei um toalha em algum lugar, dei a ela, fechei a porta e fui terminar o cafe, ja que a agua ja devia estar fervendo.

Depois disso, encontrei-a andando desequilibrada ate o quarto. Eu a amparei e escolhi algumas peças de roupa e a dei. Fechei a porta e voltei, trazendo cafe e biscoitos. Ela estava deitada na cama, nua. Maldiçao, ela tinha de ser tao bonita? Vesti-a com certa dificuldade e uma explicavel lentidao. Depois disso ela me abraçou de novo e tornou a chorar.

Fi-la beber o cafe amargo e tentei que ela me explicasse o que estava acontecendo. Foi pior, ela começou a balbuciar uma serie de coisas ininteligiveis, enquanto eu secava seus cabelos longos e negros. Depois disso, a fiz deitar, com o cabelo enrolado numa toalha e cobri-a com o longo cobertor. Fiquei ao lado dela ate que ela dormisse.

Depois disso cai exausto no quarto ao lado, dormindo profundamente

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Acordei cedo no outro dia e vi que ela ainda dormia. Seria melhor assim pois nao queria incomoda-la. Vendo-a assim tao tranquila nem podia imaginar que aquilo tudo aconteceu na noite anterior.

Desci e fui pra casa.

Desse dia em diante nada mais foi igual. Jamais nos falamos depois disso. Aquela coisa toda que eu sentia esfriou. Semanas depois ela se foi e ficou como uma lembrança distante.

Ate ontem quando encontrei uma encomenda dela no correio. Abri e sorri quando encontrei dentro o vestido que ela usou naquele dia e uma passagem pra um cruzeiro pelas Bahamas. Eh, uma coisa que nao posso eh chama-la de mal-agradecida...

Saturday, September 09, 2006

Mosteiro

m

Antes de tudo houve o silêncio e o frio, na madrugada da Cidade. No fim, a marca dela nua de seus carros e suas gentes é sua maior virtude. Existem cidades que não dormem, mas são justamente as que dormem que mais interessam a Matheus. Ele e a rua, ele e o carro, unidos num amálgama, andando a mais de cem por hora, cruzando semáforos vermelhos, vez ou outra vendo de relance mendigos e os pequenos homens urbanos que se escondem para não incomodar o sonho da Cidade.

Ele e o som alto, tocando Janis e os postes que passavam num ritmo frenético. E, é claro, ele e a lágrima insistente, única, no olho direito, a importunar a visão, a tornar túrgidas as linhas dos prédios, a tornar ainda mais cinzentas as árvores dorminhocas. A lágrima a esconder as corujas e os morcegos, mas não tão forte para mudar a cor do céu. Estrelas pontilhavam em torno da Lua e dava um ar tão simbólico e bucólico àquela noite desgraçada...

Uma noite em que a Cidade dormia e ela estava aninhada nos braços de outro homem.

Tudo era tão doloroso. A música forte, os corpos suados, os sorrisos das mulheres e ele só, a observar tudo. De longe, sempre de longe. Um espectador da vida a ver os dias e as noites das janelas dos seus óculos. Janelas que se fechavam para o mundo...

E como ele se odiava por isso. Como ele achava cruel seu auto-exílio, sua solidão voluntária, seu recuo do mundo dos vivos. Ele era a noite da Cidade, acordado enquanto todos dormiam...

E ele não viu a ponte, não viu o céu e não viu o lago a se aproximar muito veloz. Só viu depois, quando tudo virou escuridão

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Mas então era dia e o sol nascia atrás das mansões do Lago. Óculos quebrados, ele sentia uma dor terrível em todo o corpo, na cabeça e nos membros. Estava molhado e sentia muito frio, mas ao lado via uma pequena fogueira de gravetos que soltava vestígios de fumaça.

E a viu pela primeira vez, vestido sujo e rasgado, dentes tortos, olhos baixos, no máximo doze anos. E a viu sorrir e teve uma vontade imensa de acordar com a Cidade de dizer vivas e vivas. Era uma princesinha equatorial, sua própria indiazinha, um vestígio de alegria descomunal sobre pequenas pernas finas e tortas...

E ele sorriu e sentiu seus olhos brilharem. E, olhando nos olhos dela viu uma grande transformação. Da alegria juvenil ao horror, desespero. Ele não teve nem tempo de se virar antes de vir a polícia militar e acertá-lo com dezenas de golpes de cassetete.

Gritava de dor, sentia o sangue a escorrer pelas têmporas, ouvia o estalar dos ossos se quebrando e viu de relance a menina e sua família correndo desesperados. Estavam salvos.

Viu isso e descansou, se desligando de tudo.

Seu corpo foi jogado no lago e encontrado boiando horas depois.

Friday, September 01, 2006

Ciúmes

– Não é possível continuar assim – Era Luíza falando com Júlia no telefone.

– Ai, mas o que aconteceu mesmo? Eu ainda não entendi

– Ah, esfriou, sabe? Isso deve ser normal, acontece com todo mundo.

– Mas o Jonas nunca pareceu assim. A gente vê vocês tão felizes. Quem vê de longe não sabe nada mesmo...

– É, você tá certa, faz tanto tempo que a gente não sai, não faz alguma coisa interessante. Puxa, ele era tão promissor no começo, sempre me levava pro cinema, pra dançar.

– É, eu lembro dele dançando contigo. Gafieira no Bar do Maneco, você lembra?

– Ô, se lembro... Depois que a gente casou nunca mais. E sabe o que é pior? São os sete anos

– É, os sete anos são terríveis mesmo. Ainda mais pra vocês que não têm filhos.

– Você acha isso assim tão importante?

– Ah, com certeza, a gente vê o Jonas e já percebe que ele seria um bom pai...

– Como assim?

– Ah, ele é divertido, sincero, não é muito bonito...

– E desde quando boniteza faz um pai ruim?

– Ah, você sabe?

– Não sei não senhora..

– Homem é tudo sem vergonha. Homem bonito então? Ninguém segura mesmo. Eles adoram galinhar...

– Não o Jonas...

– E como é que tu sabe?

– E você, como é que sabe que não?

– Ah, andei pensando numas coisas, mas não sei se te falo...

– Começou, termina...

– Mas é capaz de tu ficar magoada...

– Fala logo senão eu nunca mais te ligo...

– É o seguinte, ele anda frio, não anda?

– Anda..

– Não te leva pra sair, não faz mais nada de novo...

– E daí?

– Uai, é óbvio...

– Não é não..

– Ele só pode ter uma amante...

– Você acha?

– Ah, um homem como o Jonas. Ele era perfeito, não era? Te dava de tudo. Mudar de uma hora pra outra só assim mesmo...

– Não pode ser.

– ...

– Pensando bem tem um pouco de lógica...

– Muita...

– Desgraçado, ele todo certinho, todo bonzinho, me fazendo de boba esse tempo todo. Safado..

– Homem nenhum presta.

– E eu aqui, preocupada com ele, achando que a culpa era minha.

– Safado, pilantra! Acho que sei até quem é...

– Quem?

– A Beth?

– A Beth? Mas ela é tão certinha...

– Essas são as piores. É o que dizem...

– Ah, maldita Beth!

– Que foi? Você tá chorando?

– E como é que não chora? Esse cretino faz uma coisa dessas comigo? Eu sempre fui uma grande esposa, fiz tudo que ele precisava de mim. Não tenho culpa de não ser dessas desavergonhadas que se dá de qualquer jeito. E tinha de ser a Beth? Ela é crente...

– Mas é só uma suspeita, amiga..

– Só pode ser isso, só pode ser ela.

– Olha o que tu vai fazer...

– Relaxa que eu cuido do meu maridinho...

– Amiga, tenho de ir, mais tarde eu passo aí pra gente conversar. Não faz nenhuma besteira...

– Não se preocupa. Eu não faço...

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Luíza matou Jonas na hora do almoço com um tiro na nuca antes que ele pudesse mostrar o anel de diamantes que tinha comprado para o aniversário de sete anos de casamento.

Ela se matou dias depois, quando soube de toda a verdade. Ele estava sendo frio pra despistar da surpresa. Jamais houve homem tão fiel quanto Jonas...

Júlia compareceu ao enterro sem nenhuma cerimônia, com certeza de que Jonas não prestava de jeito nenhum...

Mas no fundo, no fundo, ela não podia admitir que não fosse desejada pelo marido da amiga...