Morena
Eu não sei direito como isso começou. Eu acho que foi quando a vi pela primeira vez andando de bicicleta pela rua, provavelmente indo pra academia. Era meio longe e obrigava a ir de bicicleta.Não sei o que eu vi primeiro. Os homens sempre dizem que são os olhos, mas é pra não comprometer. Na verdade o que chama a atenção são outras coisas...
Tá, admito, ela é bonita, mas não é pro meu bico. Eu gosto tanto das morenas de cabelo preso em rabo de cavalo que andam de calça colada em uma bicicleta pela rua que eu não tenho nenhuma pretensão de conquistá-las. Tipo, é que nem quando a gente ouve uma música muito bem composta. A gente tá se lixando pra quem é o compositor, se ele morreu de AIDS ou de overdose, ou foi na cama de uma prostituta. Tá, eu só penso o pior. Ele pode muito bem ter morrido velhinho de pneumunia. Mas o que eu queria dizer é que o que vale mesmo é a emoção...
Então, ver aquela morena às terças e quintas descendo a ladeira de bicicleta era como ouvir a mesma canção de maneiras diferentes a cada vez. Não era nada erótico, ou vulgar. Eu simplesmete imaginava ela antes de vir e ficava pensando nos durantes e depoises...
Mas eu nunca pensei que fosse passar disso. Ora, a gente escolhe algo bonito pra observar e nao pensa que isso vai acabar fazendo parte de nossa vida...
E foi com muita surpresa que eu vi o caminhão de mudanças chegar um dia desses e parar na frente da minha casa. E quem eu vejo comandando a arrumação? Ela.
Claro, eu pensei no pior, que ela era casada, que o marido ia morar com ela, que ela tinha sete filhos (não, era jovem demais pra ter sete filhos...), e todas aquelas coisas. Eu precisava arrumar uma desculpa pra não ficar maluco por aquela mulher.
Mas não. Nas outras semanas eu descobri que ela era solteira, solteiríssima e ia morar naquela casa enorme com seu gato pardo.
E as terças e quintas se transformaram em visões diárias. Eu a via na fila pra comprar pão, colocando as roupas no varal no fim de semana, na parada de ônibus vez ou outra. Nossa, aquilo foi um martírio diário.
E eu não saía da frente de casa. Quando eu voltava do trabalho, no fim do dia, eu sempre passava fortuito pela frente da casa dela esperando vê-la. Esperava ela sair pra comprar pão no fim de semana e marcava meus compromissos pensando em quando eu podia encontra-la sem dar muito na vista.
A coisa tava ficando tão feia que eu até decorei o nome do perfume dela: Kriska.
A vizinhança acabou desconfiando dessa minha nitida contemplação. Mas como é que a gente não admira a Vênus de Milo todo dia se ela tá ali, na frente da nossa janela?
Mas o pior mesmo foi quando eu comecei a ouvir os boatos dos vizinhos sobre ela. Os homens diziam horrores sobre sua tórrida sexualidade, e faziam gestos obscenos quando ela passava. Ah, mas as mulheres eram muito piores. Elas falavam que ela era uma isso e uma aquilo. Não se preocupem, eu não vou dizer o que elas diziam. Mas vocês que tem vizinhas podem muito bem imaginar...
Como ela morasse sozinha foi difícil ser aceita pela comunidade local. E eu a via sempre sozinha a ser difamada por todos os outros vizinhos. É claro, não posso ser falso moralista. É bem provável que muito do que diziam sobre ela fosse verdade e eu queria muito acreditar nisso. O problema é que olhando pra ela a gente nao pensa que isso possa ser verdade.
E foi numa noite de abril em que eu voltei pra casa tarde de uma festa de casamento que a vi sentada em frente a sua casa. Eu a vi de relance e não fosse o cabelo negro nao a reconheceria. Ela estava la, desolada, olhando para o vazio e depois da janela apagada de casa eu podia ve-la, naquela noite escura, sentada no meio-fio. Aquilo partiu meu coraçao. A Venus de Milo estava sozinha e abandonada.
Eu nao aguentei. Abri o portao e parei. Oras, mas o que eu diria? "Nossa, como a noite esta escura!" ou "Voce viu? Plutao nao eh mais um planeta. Isso eh extraordinario!" Maldiçao, no fundo eu sabia que conversar com ela nao seria nada facil. E ali, naquele dilema, olhava pra ela e ficava praguejando pela minha propria falta de iniciativa.
Foi quando a vi esconder o rosto entre os joelhos e começar a chorar.
Era demais. Fechei o portao, atravesei a rua e fiquei parado na frente dela ouvindo seus soluços.
- Qual eh o seu nome?
De todas as perguntas ridiculas faziveis essa era indubitavelmente a pior. Eh claro, ela nao respondeu, limitou-se a chorar mais e mais. E eu sentei ao seu lado e a via tremer devagarinho. Via a chave em uma das suas maos e o vestido negro mal colocado na outra. Podia ver a curva dos seios indecentemente pelo decote. Mas isso era coisa que se pensasse?
Ela me abarçou e eu senti um estremecimento. Tentei ficar impassivel, mas eh impossivel quando alguem chora no seu ombro. Tomei uma atitude. Peguei-a pelos braços, tomei a chave de suas maos e a carreguei ate em casa.
Chegando la, suado, exausto, com os musculos doendo e prometendo entrar pra academia no dia seguinte, a deixei no sofa. O vestido subiu demais e podia ver toda a perna e a calcinha. Ela nao ligava nem um pouco pra isso so se preocupava em chorar. Eu, bem...
Eu fui fazer um cafe bem forte. Afinal, nunca fui um bom conselheiro e nao podia ficar na mesma sala que ela controlando meus pensamentos.
E derrubei umas panelas, tive trabalho pra ligar o fogao, mas quando a agua ja estava no fogo, voltei para ver como ela estava. Bem, o problema era esse, ela nao estava. Procurei-a pela casa, esbarrando no gato, e fui seguindo comodo a comodo, ate encontra-la no banheiro, sentada sobre a privada e soluçando palavras soltas.
Aquilo era demais. Tomara que nenhum de voces nunca passe por essa situaçao. Sem saber muito bem o que fazer, coloquei o chuveiro no frio, liguei e a puz embaixo. Coitada, ela tremia de frio e e vestido colava em seu corpo de um jeito tao indecente...
Bem, provavelmente se fosse comigo eu matava o infeliz que teve essa ideia. Porem, nao sei como, funcionou e ela parou de chorar. Apenas ficou a olhar pra mim, mas como se nao me visse. Ah, eu nao estava com vontade de fazer divagaçoes sobre isso. Peguei um toalha em algum lugar, dei a ela, fechei a porta e fui terminar o cafe, ja que a agua ja devia estar fervendo.
Depois disso, encontrei-a andando desequilibrada ate o quarto. Eu a amparei e escolhi algumas peças de roupa e a dei. Fechei a porta e voltei, trazendo cafe e biscoitos. Ela estava deitada na cama, nua. Maldiçao, ela tinha de ser tao bonita? Vesti-a com certa dificuldade e uma explicavel lentidao. Depois disso ela me abraçou de novo e tornou a chorar.
Fi-la beber o cafe amargo e tentei que ela me explicasse o que estava acontecendo. Foi pior, ela começou a balbuciar uma serie de coisas ininteligiveis, enquanto eu secava seus cabelos longos e negros. Depois disso, a fiz deitar, com o cabelo enrolado numa toalha e cobri-a com o longo cobertor. Fiquei ao lado dela ate que ela dormisse.
Depois disso cai exausto no quarto ao lado, dormindo profundamente
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Acordei cedo no outro dia e vi que ela ainda dormia. Seria melhor assim pois nao queria incomoda-la. Vendo-a assim tao tranquila nem podia imaginar que aquilo tudo aconteceu na noite anterior.
Desci e fui pra casa.
Desse dia em diante nada mais foi igual. Jamais nos falamos depois disso. Aquela coisa toda que eu sentia esfriou. Semanas depois ela se foi e ficou como uma lembrança distante.
Ate ontem quando encontrei uma encomenda dela no correio. Abri e sorri quando encontrei dentro o vestido que ela usou naquele dia e uma passagem pra um cruzeiro pelas Bahamas. Eh, uma coisa que nao posso eh chama-la de mal-agradecida...

5 Comments:
Que menino respeitoso! Merece mesmo ganhar um cruzeiro... legal se ela fosse também... hahahahahah.
A-dO-REI, a construção do personagem, o clima de tensão, a situação, a descrição, o final.
P.E.R.F.E.I.T.O.
não adiciono nada no comment da eva..perfeito!
abalaste bangú, meu querido!
Sem palavras...
Porque cazzo eu vou ficar sem saber o que ela tinha?
Bem, posso imaginar... mas é uma bela história, bela mesmo... quisera eu fazer um cruzeiro pela Bahamas.... ou ver o sol se pôr na praia.
Poeta, vc como sempre, é um GRANDE POETA!!! GRANDESSÍSSIMO, AMADÍSSIMO, QUERIDÍSSIMO POETA!!!
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