Thursday, October 26, 2006

Eros, Vênus e Marte



Sim, nas cama se vigiam os dois amantes-deuses em olhares vazios e perdidos. A criação, fundida nos sexos, se mistura ao suor delicado, sabores de manjares e outros tipos de frutas.

Não existe amor, existe posse e dúvida. A guerra e a beleza, unidos num beijo cósmico no peito que bate em descompasso com a respiração. Marte e Vênus, crias de Júpiter, irmãos de carne, entregues ao êxtase num trono de nuvens.

Não, nada mais puro, nada mais fácil, nada mais intransigente. Nada mais forte e doloroso quanto o ruído orgástico dos suspiros da Vênus, descabelada, destilada de seu sorriso de diva, reduzida a uma mortal, mulher, serva aos desejos do Senhor da Guerra!

Sim, Vênus castigadora e cruel, criando com isso uma nova raça de gênios. Amor e fúria, beleza e beligerância, sangue, sangue, sangue, ao serviço dos desígnios dos senhores do Olimpo...

Sim, o começo de uma grande orgia, uma carnificina, Urano, Mercúrio, Atlas, Calipso, Saturno, Dafne, Dione, Encelado, Epimeteu, Febe, Helena, Hipérion, Jano, Japeto, Methone, Mimas, Pallene, Pã, Pandora, Prometeu, Reia, Telesto, Tétis, Titã, Plutão. Uma festa, uma guerra, uma glória para os homens. Um espetáculo, uma explosão de paixão, gozo e luxúria.

Uma concepção. A gravidez de Vênus. Eva, nascida para ser a mais bela das suas filhas. Eva, pra parir a humanidade. Desposada seja de teu marido, esposo, amante, senhor: Adão, filho de Marte. Beleza delicada para interferir na Guerra..

Sunday, October 22, 2006

E então, quando ela se desfez em gozo

É que eu vi como é que o mundo é multicolorido

Wednesday, October 18, 2006

Molotov

Quando teve a primeira explosão de coquetel molotov na praça quinze de maio eu me peguei perguntando porquê cargas d’água eu ainda tava perdendo tempo ali com aquela menina. Eu sabia que aquele troço não ia dar futuro.

Olhei pros coturnos de marca, a camisetinha preta do Guns’n’roses (tem coisa mais Punk-Paty que Guns?) muito marcadinha pro meu gosto, a calça jeans rasgada artificialmente por algum desses estilistas alemães e os piercings de prata no nariz e na orelha e já aí notei: não ia dar futuro...

Todo mundo sabe, Primeira Lei dos Punks: Punk-Paty não dá futuro.

E ela ali, com os olhos baixos, calada, fingindo êxtase com as cenas da rua, mas se cagando de medo dos PM’s. Ah, eu queria tanto estar lá fora, sentindo o cheiro da gasolina queimando, do gás lacrimogêneo, jogando água suja de cocô de pato naqueles pés-de-bota.

Ah, o meu irmão tava em cima do carro da polícia, metendo paulada em todo mundo. Raios, ele sim que sabia se divertir. Deve ser porque ele é gay, homem não tem frescura não. E mulher punk também não tem, mas aquilo ali era vergonhoso, se quer dar, dê, oras, não venha com essa conversinha. Onde já se viu punk de olhos azuis? Aquilo só podia ser lente de contato...

Ta, ela era bonita, mas, caralho, beleza é só uma ditadura implantada pela cultura Ianque com o objetivo único de continuar nos tratando como países periféricos e subdesenvolvidos. E porquê ela tava dando mole justo pra mim? Deve ser porque eu fiz uma musiquinha pra ela: Olhos de Anis...

Putz, chegou o Caveirão, aquele carro blindado da polícia. A pancadaria tava no auge e eu aqui, com uma Punk-Paty. Quanto tempo eu teria de esperar pra rolar outra pancadaria dessas? Ah, decidi, eu vou sair.

Hum, que beijo bom. Não tinha visto o piercing na língua. Sempre gostei de brincar com essas coisas. E a mão na minha bunda não tava nem um pouco planejado. Mas, oras, uma pancadaria com a polícia me espera lá fora.

Mas sentir os bicos dos seios quase rasgando a camisa é bom...

Não, sou punk, a revolução é mais importante. E, além disso, sou homem. O que o povo vai pensar se não me ver no meio da pancadaria? Vão me chamar de frôxo, de Emo, de rola bostas...

Hum, mas ela sabe como pegar na nuca, no peito, na virilha...

É, a revolução espera. Tenho que quebrar a primeira Lei dos Punks. Mas eu sou Punk, nasci justamente pra quebrar leis.

Acho que essa conversa pode dar futuro.

E que futuro...

Thursday, October 12, 2006

Conquista

Corre a mão pela minha cintura, gentil como a debutante acariciando o próprio vestido. Segue os contornos do meu rosto com a ponta dos dedos, tentativa de tirar a poeira de saudade que ali se depositou durante sua ausência.

Repentinamente, seja forte, me arrebate. Aperte meus pulsos e me leve pelo caminho que você escolher. Que seja o meu caminho preferido, mas que eu vá arrastada pelos cabelos. No abraço, jaula morena, eu prisioneira selvagem. Beija meu seio como o devoto faz à imagem.

Destrói os limites e descobre meu relevo. Flutue sobre mim, homem na Lua, sem o peso dos dias e das horas. E quando soar o segundo entre delícia, desespero e tremor, finca em mim a bandeira e deixa bem claro de quem sou.

Monday, October 09, 2006

Viadutos



Dama de concreto, bela e inócua
Perdida no céu, imóvel e embalsamada
Ela me encanta, me apaixona
Me desconecta do mundo dos vivos..

E de que modo posso lhe dar alento
Fulgura ou absolvição?

Não, eu não tenho nada, não sou um adversário
Verdadeiro para o Pôr do Sol...

Imperador

Wednesday, October 04, 2006

Descoberta

Diz na minha boca o que dizes a ele!
Diz na minha boca o que dizes a ele!
Diz na minha boca, mas diz de uma vez...

Diz dos passeios de barco, das tardes, das festas
Diz dos dois filhos, das viagens, dos hoteis
Diz das fantasias, das praias, de toda a vida
Diz o que sentes, teus sorrisos, teus sonhos
Diz da tua casa, do teu carro, seus amigos

Diz nos meus olhos o que dizes a ele
Diz nos meus olhos o que dizes a ele
Diz da garganta, do estomago, do peito
Diz verdadeira mas diz de uma vez...

Por que?
Porque decides uma vida comigo
E depois se vai com o vento?

Lamina quente que me corta a garganta
E me sorrio entre os dentes...

Monday, October 02, 2006

Bodas

– Você ainda me ama?

– É claro que sim, seu bobo! Acha que amor acaba assim? Amor acaba não!

– Ah, mas eu fico pensando no Rui e na Júlia. Eles apenas se suportam depois de todos esses anos. A gente vê a má-vontade no olhar dos dois...

– Mas você não é o Rui e eu não sou a Júlia.

– Ah, mas eu fico pensando, sabe? Aquela coisa que eu tinha, aquela história de pensar em você o tempo todo acabou. Agora eu penso em você como uma segurança, alguém em quem confio e posso sempre contar. Não é mais a razão da minha vida...

– Ah, é? Não sou não? Então eu largo de você e vou casar com aquele seu amigo bonitinho, qual é o nome dele?

– O Carlinhos!

– Isso, o Carlinhos!

– Ah, nem vem, eu sou muito mais homem que ele!

– Pára de fazer cócegas!

– Paro se você admitir!

– Não admito!

– Admite!

– Ah, eu vou mijar!

– Como eu posso admitir que você é mais homem que ele se eu nunca durmi com ele?

– É, você venceu...

– Ah, mas que dá vontade dá! Ele tem um bundinha...

– A gente tem de ficar falando da bunda do Carlinhos nas nossas bodas de Prata?

– Foi você quem começou, seu bobo, amor da minha vida!

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– Mas tu queria dar pro Carlinhos mesmo?

– Ai, de novo essa história? Queria sim, mas como eu tô com o maior machão do mundo, eu não quero mais, só quero você...

– Ah, é?

– É! Vem cá, vem?

– Vou sim....

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– Como pode continuar tão bom? Vinte e cinco anos com a mesma mulher!

– Vinte e sete, a gente namorou um ano e noivou um, lembra? O quê, achou que fosse cansar, é?

– Não sei, quando se é jovem a gente acha um desperdício ficar a vida inteira com a mesma mulher...

– Ah, e agora você é velho?

– Não sou não! Eu sou um quarentão enxuto!

– Você tem 49!

– Então, sou quarentão ainda!

– E, se você é jovem ainda, ficar comigo seria um desperdício?

– Seria com qualquer mulher, exceto você...

– Ai ai, pra quem não é mais apaixonado por mim, você ta bem romântico hoje...

– É a crise da meia idade

– KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

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– E porquê a gente não teve filhos?

– Ah, não deu, ué. A gente trabalhou tanto pra tar aqui hoje...

– Mas eu queria ter tido filhos...

– ...

– Não chora amor! Foi uma escolha nossa, lembra? Com os dois trabalhando, como a gente podia cuidar bem de uma criança?

– Mas a gente podia ter apertado um pouco, feito um esforço...

– Mas não fizemos isso. E agora é tarde..

– Ah! Não é tarde, a gente pode adotar, um, dois, uma dúzia!!!

– UMA DÚZIA!!!!!

– Ah, seria tão legal, esta casa cheia de gente, netos!

– Eu sou jovem demais pra ter netinhos!

– Ah, é, você é um quarentão enxuto...

– Pára de desdenhar, senão eu volto a fazer cócegas...

– Volta, volta? Ainda promete me fazer feliz pro resto da vida?

– Prometo. E ainda tem muito resto pela frente...

– Um infinito...