Friday, November 17, 2006

B(alza)quiana

Metade mulher, metade fúria, fiquei muito surpreso quando, depois de tantos anos, ela falou comigo pela primeira vez. E ela veio como sempre: arrogante e fatal. Cada uma das palavras era um soco no estômago.

E não sei porquê, enquanto ela falava as palavras se misturavam na minha cabeça e eu não pude ouvi-las. Via o branco dos dentes tortos, a linha indecente do decote, o vestido vermelho que lhe assentava muito bem o corpo. Via a respiração ofegante, o cenho franzido, as sobrancelhas mal-feitas muito próximas, a veia saltada no pescoço.

Aquilo era uma bachiana. Os braços se movendo muito rápidos, as mamas que subiam e desciam acompanhando o movimento dos ombros, prestes a me afogar. Ouvia os acordes de Bach, um violino e ela dançava e cantava numa língua ininteligível. A língua dos insultos, da fúria.

Uma vontade louca de tomá-la ali mesmo, no corredor do prédio, em meio às crianças que brincavam de carrinho. E as minhas palavras saíram soltas e decididas:

– Entre, aqui está fazendo muito barulho.

Não tinha ouvido nada além da melodia bem composta do violino em meu cérebro e ela bailava naquele som, fantasia e realidade reunidas enquanto continuava o palavrório. E meu próximo gesto foi inevitável e avassalador.

Sabia que era perigoso e poderia ser fatal, mas mesmo assim calei-a com um beijo forte, decidido, beijo de homem. E ela se movimentando ainda mais, agora em descompasso com a música, tentando se desvencilhar, mordendo minha boca, e eu segurava suas mãos, continha seus movimentos.

E ela parou, retribuiu a carícia, lambeu o sangue dos meus lábios, agarrou minha nuca com força, arranhou meu peito, rasgou minhas roupas e me jogou sobre o tapete. E eu sabia que não podia ser assim. Eu era o controle e tinha de exibi-lo. E com todas as minhas forças a joguei no chão, rasguei seu decote, abri seu sutiã e tomei seus seios como meus.

Amei-a com fúria sobre o tapete da sala e, enquanto ela ainda se recuperava, perguntei:

– O que a senhora queria mesmo?